Serafim de Sarov

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Ícone de São Serafim com momentos da sua vida

São Serafim de Sarov (30 de julho de 1754 — 14 de janeiro de 1833) foi um dos mais renomados monges russos e místicos da história da Igreja, sendo geralmente considerado o maior staretz (ancião) do século XIX. Ele é lembrado por estender os ensinamentos monásticos de contemplação, theoria e abnegação aos leigos, e ensinar que o propósito da vida cristã era adquirir o Espírito Santo. Sua memória é celebrada no dia 2 de janeiro e a abertura das suas relíquias no dia 19 de julho.

Vida

Primeiros anos

Ancião Serafim, batizado Prokhor Issidorovitch Moshnin (em russo: Прохор Исидорович Мошнин) em honra a São Prócoro, um dos Sete Diáconos e discípulo do Santo Apóstolo João, nasceu em 1754 na cidade de Kursk, sendo o terceiro filho de Isidoro Ivanovitch e Ágata Photievna Moshnin (Mashnin, segundo algumas fontes), uma família de comerciantes.

Em 1752, próximo do fim de sua vida, Isidoro havia assumido a tarefa de construir uma igreja de dois altares em Kursk, conhecida hoje como Catedral de Sérgio-Kazan, seguindo o estilo do famoso arquiteto Francesco Rastrelli. No entanto, Isidoro faleceu com 43 anos em 1760, antes da conclusão da obra. A família não quis desistir ou confiar a construção a outros, assumindo a tarefa a si mesmos, supervisionando o restante das atividades por 12 anos. Para sustentar os filhos, Ágata também assumiu a fábrica de tijolos da família até Alexei, o filho mais velho, ter idade suficiente para assumir a sua gestão.

Com 7 anos de idade, quando Ágata estava na igreja supervisionando as atividades da construção, Prokhor seguiu sua mãe até a torre do sino. Enquanto ela estava ocupada instruindo os trabalhadores, a curiosidade seduziu-o para muito perto da borda da plataforma e caiu no chão. Ágata desceu correndo as escadas dos sete andares da torre com temor, mas seu temor se transformou em um grande espanto ao encontrar seu filho em pé, inteiro e ileso. Um Louco-por-Cristo testemunhou o incidente e disse que a criança certamente devia ser um dos eleitos de Deus.

Outro acontecimento milagroso ocorreu quando ele tinha 10 anos e ficou gravemente enfermo. Em um sonho, Prokhor viu a Theotokos, que prometia curá-lo. Pela graça de Deus, alguns dias depois aconteceu uma procissão em Kursk com o ícone milagroso de veneração local conhecido como Ícone da Mãe de Deus de Kursk. Devido ao mau tempo, a procissão seguiu um caminho mais curto que passou exatamente diante da casa dos Mochnin. Sua mãe o levou até o ícone e depois disso se recuperou rapidamente.

Quando chegou à adolescência, precisava ajudar na loja da família. Porém, ao contrário de seu irmão mais velho Alexis, o comércio pouco o atraía. O jovem Serafim gostava de ler as Sagradas Escrituras, as vidas dos santos, frequentar a Igreja e se isolar para rezar. Acima de tudo, gostava de ler o Santo Evangelho em privado.

Em 1776, Prokhor estava decidido em se tornar monge. Apesar da separação com a mãe ter sido difícil, ela abençoou-o com um crucifixo de cobre, o qual ele usou durante toda a vida por cima de suas vestes. No mesmo ano, junto com outros cinco filhos de comerciantes, realizou uma peregrinação a Kiev para buscar uma maior orientação para suas vidas. Kiev era uma cidade santa, "a mãe das cidades russas" onde em 989 o Santo Príncipe Vladimir batizou seu povo no Rio Dniepr. Lá visitou a Lavra de Kiev-Pechersk, onde se encontrava as relíquias dos fundadores do monasticismo russo: Santo Antônio e São Teodósio de Kiev. Lá receberam a recomendação de conversar com o Ancião Dositeu de Kiev, que o abençoou e disse-lhe que deveria fazer os votos no Monastério de Sarov. "Vai sem medo" disse o Ancião, "e permanece lá. É lá que salvarás tua alma. É lá também que terminarás tua peregrinação terrestre. Familiariza-te com a lembrança constante de Deus. Invoca seu Santo Nome. E o Espírito Santo virá habitar em ti e guiará tua vida em total santidade."

Desta forma, as questões do monasticismo e do monastério foram decididas definitivamente na vida de Prokhor. Quatro dos amigos que o acompanharam entraram para a vida monástica como ele, sendo que dois foram a Sarov, enquanto os outros dois escolheram ou foram designados para outros mosteiros. No regresso a Kursk, ainda ficou dois anos resolvendo seus assuntos e entregou a sua parte da herança ao seu irmão, partindo em uma caminhada de 560 km a Sarov.

Entrada ao monastério

Prokhor e seus dois companheiros chegaram em Sarov na véspera da Festa da Entrada da Santíssima Deípara no Templo, dia 20 de novembro de 1778. No dia seguinte, o abade, padre Pacômio, recebeu oficialmente os três jovens no monastério. A primeira obediência que Prokhor recebeu foi ser assistente do padre José em sua cela. De acordo com a regra geral (A regra de São Pacômio do séc. IV), foi dado a ele várias obediências adicionais. Ele serviu preparando as prósforas, acordando os monges, sendo sacristão, cantando, cortando madeira, cuidando do terreno, etc. Prokhor distinguiu-se dos outros pela sua obediência, nunca murmurando-se das suas tarefas, realizando tudo da melhor maneira possível.

Suas solitárias devoções e leituras privadas ocupavam seu tempo a noite, permitindo-se apenas a quatro horas de sono por dia. Ele não só lia as Sagradas Escrituras como também tentava assimilar e praticar o significado dos seus ensinamentos. Além disso, lia muitos os Santos Padres e o Menologion de São Dimitri de Rostov. Sua abstinência excepcional de alimentos e sono tornou-se particularidade característica de sua vida. Ele se alimentava apenas uma vez ao dia, e assim mesmo de muito pouco. Às quartas e sextas-feiras não comia nada. Sua devoção, no entanto, não diminuiu sua alegria juvenil, o que o fez popular com seus companheiros noviços.

Em 1780, durante seu segundo ano no monastério, ficou doente de hidropsia. Sua condição continuou piorando ao longo dos próximos três anos, a ponto de já não poder mais sair da cama. O abade do Monastério resolveu chamar um médico, mas Prokhor pediu para que lhe dessem a Eucaristia. Segundo seu próprio relato, após a Eucaristia ter sido servida, a Theotokos apareceu para ele acompanhada por vários santos, e apontando para o venerável monge, a Virgem falou ao Apóstolo João, o Teólogo: "Este é da nossa linhagem." Depois, tocando seu flanco com o bastão, Ela o curou.

Depois de recuperar totalmente sua força, Prokhor buscou e recebeu a permissão do abade para deixar a comunidade em busca de contribuições para construir uma enfermaria e uma capela no monastério em agradecimento de sua cura. Suas viagens o levaram tão longe quanto Kursk, onde é relatado que viu sua mãe novamente. Em 1784, deu-se início a construçãoda Igreja dos Santos Zózimo e Savvas, e Prokhor ficou encarregado de construiu o altar com madeira oriunda da ilha de Chipre.

Tonsura, ordenação e vida ermita

Em 13 de agosto de 1786, oito anos após entrar no monastério e com 27 anos de idade, foi tonsurado monge pelos padres José e Isaías. Abade Pacômio, impressionado com a sua fé "seráfica", deu-lhe o nome Serafim, o que em hebraico significa "ardente, ígneo". Prokhor, agora Serafim, aumentou seus esforços ascéticos e trabalhou na prática do silêncio.

Logo ele foi feito hierodiácono. Ele de fato justificava seu nome pelo seu ardor extraordinário da oração. Todo o tempo, exceto em um breve descanso, ele passava na Igreja. Por conta dessa comunhão com Deus e de sua frequência nos serviços religiosos, foi digno de poder ver anjos servindo e cantando dentro do templo, assim como pode ver durante a liturgia da quinta-feira Santa o próprio Senhor Jesus Cristo seguindo para a Igreja junto com uma legião celestial e abençoando a todos que rezavam. Assombrado com esta visão, Serafim não conseguiu falar por um longo tempo.

São Serafim alimentando um urso. Fragmento da litografia "O caminho para Sarov", 1903

Em 1793 Serafim foi ordenado um hieromonge, após o que durante um ano ele oficiou e tomou a Santa Comunhão todos os dias. Após esse tempo, começou a retirar-se para sua "ermida distante", uma floresta afastada cinco quilômetros do Monastério de Sarov. Lá jejuou, leu as Escrituras Sagradas e os escritos patrísticos, e rezou todos os dias. Grande foi a perfeição alcançada por ele nesse tempo. Animais selvagens como ursos, coelhos, lobos, raposas e outros se aproximavam da cabana do asceta. A staritza do Monastério de Diveevo, Matrona Plescheiva, viu pessoalmente Serafim dando de comer em suas mãos a um urso que veio até ele. "O rosto dele me pareceu excepcionalmente maravilhoso; estava radiante e iluminado, como o de um anjo", ela descrevia.

Um dia, enquanto cortava madeira, Serafim foi atacado por uma gangue de ladrões. Em resposta às ameaças e as exigências de dinheiro, ele colocou o machado no chão, cruzou os braços sobre o peito e obedientemente se rendeu aos bandidos. Eles começaram a golpeá-lo na cabeça com o cabo do seu próprio machado e o sangue começou a escorrer de sua boca e ouvidos. Serafim caiu sem sentidos e começaram a bater nele com um pedaço de madeira tosca, dando inclusive pontapés e o arrastando pelo chão. Eles pararam de golpeá-lo somente quando pensaram que ele estava morto. O único tesouro que os bandidos acharam em sua cela foi o ícone do Enternecimento da Mãe de Deus, diante do qual ele sempre orava. Quando, após algum tempo, os bandidos foram capturados e julgados, o hieromonge tomou a defesa deles diante do juiz. Serafim ficou encurvado pelo resto da sua vida após essas as agressões físicas.

Entretanto, após este incidente começa o período estilista de sua vida, quando ele passou mil noites sucessivas em uma rocha na floresta em oração contínua e com os braços levantados para o céu, um feito quase super-humano de ascetismo, especialmente considerando a dor que os seus ferimentos já lhe causavam.

Motovilov e a transfiguração

Um acontecimento milagroso da transfiguração da face de Serafim foi descrito por um discípulo e admirador próximo: Nikolai Motovilov. Aconteceu no inverno, num dia nublado. Motovilov estava sentado sobre um tronco na floresta. Padre Serafim estava acocorado diante dele falando sobre o sentido da vida cristã, explicando, por que nós, cristãos, vivemos na terra.

"É preciso que o Espírito Santo penetre em nosso coração", dizia ele. "Tudo aquilo de bom que nós fazemos por Cristo, nos é dado pelo Espírito Santo, porém mais do que tudo a oração, a qual está sempre em nossas mãos."

"Batiushka" (padre), respondeu Motovilov, "como é que eu posso ver a graça do Espírito Santo; como posso saber se Ele está comigo ou não?"

Padre Serafim começou a dar-lhe exemplos da vida dos santos e apóstolos, porém Motovilov ainda não havia compreendido. Ele então tomou-o com firmeza pelo ombro e disse: "nós dois agora, meu caro, estamos no Espírito Santo". Foi como se os olhos de Motovilov se abrissem, e ele viu que o rosto de Serafim brilhava mais do que o sol. Em seu coração Motovilov sentiu alegria e paz, seu corpo estava cálido, como no verão, e ao redor deles se espalhava uma doce fragrância.

Ele se apavorou com esta mudança extraordinária, principalmente com o fato de que o rosto do starets resplandecia como o sol. Mas Serafim disse-lhe: "Não tenha medo, meu caro. Você nem poderia estar me vendo se você mesmo não estivesse na plenitude do Espírito Santo. Agradeça ao Senhor por Sua misericórdia para conosco." Foi assim que Motovilov compreendeu, na mente e no coração, o que significava a descida do Espírito Santo e Sua transfiguração no homem.

Final de sua vida

Por causa da visão especial da Mãe de Deus, ao final de sua vida tomou para si a incumbência de tornar-se um staretz (ancião). Ele começou a receber todos que vinham procurá-lo atrás de um conselho ou orientação. Muitos milhares de pessoas, de todo tipo de vida e condição, começaram a visitar Serafim, o qual as enriquecia do seu tesouro espiritual adquirido por ele pelos feitos (ou atos) de muitos anos. Todos o viam como uma pessoa dócil, alegre, meditativamente cordial. Ele saudava os que chegavam com as palavras: "Minha alegria"! A muitos ele aconselhava: "Adquire a paz de espírito e milhares se salvarão a teu redor." Não importa quem viesse até ele, ele se inclinava diante de todos até o chão e os abençoava, beijando-lhes as mãos. Ele não necessitava de que os visitantes lhes contassem a seu respeito, pois sabia de antemão aquilo que cada um tinha na alma. Ele dizia ainda: "Alegria não é pecado. Ela afasta o cansaço, pois, do cansaço surge o desânimo, e não há nada pior do que isto."

"Ah, se você soubesse", dizia ele certa vez a um monge, "que alegria, que doçura aguardam a alma do justo no Céu, você decidiria suportar com gratidão qualquer tristeza, aflição, perseguição e calúnia nesta vida passageira. Se esta nossa própria cela estivesse cheia de vermes, e se esses vermes estivessem comendo nossa carne no decorrer de toda nossa vida na terra, deveríamos concordar com isso, com todas as nossas forças, afim de não perdermos de forma alguma a alegria celestial que Deus preparou para aqueles que O amam".

Hinos

Tropário, Tom 4:

Tu amaste a Cristo desde a tua juventude, Ó Bendito,
e desejando somente a Ele servir, no deserto tu lutastes com trabalho e oração constantes.
Com coração penitente e grande amor a Cristo, tu foste escolhido como favorito pela Theotokos.
Por este motivo nós clamamos a ti: salva-nos com tuas preces, Ó Serafim nosso bondoso pai.

Kondákion, Tom 2:

Tendo deixado a beleza da terra e o que há de corrupto nela, Ó santo,
tu te estabeleceste no Mosteiro de Sarov, e ali viveste uma vida angélica,
fostes para muitos o caminho para a salvação.
Por isto Cristo te glorificou, Ó Pai Serafim,
e te enriqueceu com o dom da cura e milagres.
E então nós clamamos a ti: Alegra-te, Ó Serafim, nosso bondoso pai.

Fontes