Teodora, a Augusta

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Santa Teodora.

A Mais Ortodoxa Santa Imperatriz Teodora III, a Augusta, de Roma é comemorada pela Igreja no dia 11 de fevereiro.

Vida

Teodora nasceu em 815 numa pequena vila da Paflagônia, na costa norte da Ásia Menor (atual Turquia), vinda de uma ilustre família de oficiais armênios da corte imperial. Essa vila, não localizada porém conhecida como “Ebissa”, provavelmente correspondia à propriedade rural dessa família, próxima às florestas dos Montes Paríadres e à estrada que levava a Claudiópolis na Honória e, de lá, a Constantinopla, visto que os armênios eram conhecidos naquele tempo como comerciantes navais do Mar Negro. Outra hipótese é a vila de Evessa, próxima à antiga diocese de Terma na Capadócia, o que explicaria a ascendência armênia de Teodora, porém geograficamente incompatível com a Paflagônia.

Dotada de grande beleza física e espiritual, Teodora foi catequizada desde a infância por sua piedosa mãe Florina, que a teve como um presente de Deus no mesmo ano em que o herético Imperador Leão V (813–820) reinstituiu a iconoclastia e a perseguição aos cristãos ortodoxos. Naquele mesmo ano, Leão depôs São Nicéforo I, Patriarca de Constantinopla (806–815), e substituiu-o pelo seu fantoche, Teódoto I (815–821), que revogou as atas do Sétimo Concílio Ecumênico e autorizou a tortura dos clérigos que se recusassem a aderir à heresia. Teodora era possivelmente a quarta de seus cinco irmãos — Bardas, Petronas, Sofia, Maria e Irene —, mas os superou na piedade e na Fé inabalável herdada de sua mãe, que se tornou viúva ainda na infância de Teodora e aceitou o monasticismo sob o nome de Teoctista.

Em 829, com a morte do Imperador Miguel II (820–829), sucessor de Leão, seu filho Teófilo (829–842) sucedeu-o como imperador. No ano seguinte, quando Teófilo completou dezoito anos, sua madrasta e imperatriz emérita Eufrosina (823–829) organizou um concurso para escolher quem dentre a corte a sucederia como imperatriz e esposa de Teófilo. Jovens de toda a nobreza foram convocadas e apenas seis foram as finalistas, dentre as quais Teodora e Cassiana. Postas as seis diante de Teófilo, Eufrosina deu-lhe uma maçã dourada para que a desse à escolhida. A maçã dourada era um raro fruto, hoje desconhecido, possivelmente vindo de uma distante parte do Mediterrâneo a qual alguns acreditam ser a Mauritânia, dado como presente nupcial desde os tempos antigos.

Teófilo foi até Cassiana, a escolhida, e deu-lhe a maçã, dizendo cinicamente: “Da mulher veio a corrupção”, ao que ela respondeu: “E da mulher veio a salvação”. Impressionado pela ousadia e pela sabedoria de Cassiana, Teófilo afastou-se dela e deu o fruto a Teodora, que o aceitou. Assim, Teodora foi proclamada a nova Imperatriz de Roma em 5 de junho de 830 na Igreja de Santo Estêvão, ao passo que Cassiana renunciou o mundo e partiu para as colinas das Muralhas de São Constantino, onde viveu pelo seu verdadeiro Esposo e mais tarde alcançou a vida eterna como Santa Cassiana, a Melodista.

Após a cerimônia de casamento na Catedral de Santa Sofia, Teodora cumpriu fielmente seus deveres como esposa e imperatriz desde os quinze anos de idade. Através de suas orações e seu exemplo de gentileza e paciência, a jovem tentava afastar a crueldade e as blasfêmias cometidas por Teófilo contra os cristãos ortodoxos. Seus rogos, entretanto, não eram ouvidos pelo imperador, que provou ser mais cruel que seus dois antecessores, como no caso dos dois santos irmãos Teófanes e Teodoro que, ao retornarem do exílio para o tribunal de Teófilo, tiveram suas testas marcadas com ferro quente com doze versos que satirizavam a Fé dos confessores e foram novamente entregues para morrer no exílio.

Império sob Teófilo

Em 831, aos dezesseis anos de idade, Teodora deu a luz a Tecla, cujo nome herdou da mãe de Teófilo. Até 834, as gêmeas Ana e Anastácia e Constantino já haviam nascido, nessa ordem. Até 840, o casal teve Pulquéria, Maria e Miguel. Provavelmente sob influência do círculo iconoclasta, Constantino teve seu nome escolhido por Teófilo para honrar o ímpio Imperador Constantino V (741–775). Herdeiro do trono imperial, Constantino morreu antes mesmo de completar um ano, afogado após cair numa cisterna em 835. Como Teófilo não cria na Divina Providência e temia morrer nas mãos dos búlgaros pagãos sem um sucessor, confiou a mão de Maria, sua filha recém-nascida, ao patrício Aleixo, velho o suficiente para já naquela época comandar um batalhão de soldados.

O temor de Teófilo contra os búlgaros justificava-se porque o tratado de paz entre os dois povos, firmado ainda na era de Leão V, acabaria ainda naquele ano. Além dos recorrentes saques dos islâmicos na Capadócia e na Armênia, agora os búlgaros, que já haviam anexado a Mésia para si e detinham partes da Trácia e do Hemimonto até cidades vizinhas a Constantinopla (nas quais a população búlgara fora protegida pelo tratado), poderiam insurgir-se contra o império a qualquer momento. Somava-se a isso o martírio dois anos antes de Santo Enravota, herdeiro do trono búlgaro, por seu irmão Malamir por ter se convertido ao cristianismo. Naquele mesmo ano, Teófilo sofrera uma perda da frota de batalha imperial contra os muçulmanos na Sicília, ilha pela qual seus esforços para mantê-la sob seu domínio envolveram até propor sua filha Tecla em casamento com o jovem Luís II, o primogênito do Imperador Lotário I da França (817–855), que também detinha a Itália peninsular.

Em 836, Teófilo declarou guerra contra os búlgaros e enviou Aleixo para comandar as tropas. Nessa missão, as terras costeiras do Ródope e da Macedônia Oriental foram retornadas para o império, enquanto que diversas insurreições levaram à anexação búlgara das grandes cidades de Filipópolis na Trácia e Adrianópolis no Hemimonte. Sob temores de que Tessalônica também cairia na mão dos rebeldes, Teófilo pôs um fim à guerra e buscou um acordo com os pagãos em 837. Entretanto, quando navios imperiais foram vistos resgatando prisioneiros de guerra no Danúbio, próximos a Plisca na Mésia, a capital dos búlgaros, o Cã Presiano I (836–852) lançou uma ofensiva às terras capturadas pelo império, anexando até a costa de Filipos na Macedônia e bloqueando a ligação terrestre direta entre o Ródope e toda a parte ocidental do império.

No ano seguinte, uma grande investida islâmica chegou a Tarso na Cilícia e, atacando as grandes Portas da Cilícia, adentrou pelos Montes Tauro, passou pela Capadócia, Galácia e finalmente capturou Ancira na Galácia e Amório na Frígia, a grande capital da Anatólia. Outra frente, partindo da Armênia, passou pelo Helenoponto e reuniu-se com a primeira em Ancira. Isso foi em resposta a uma incursão de Teófilo nas cidades armênias de Arsamósata, Sozopetra e Melitene, possessões dos islâmicos. Somente nessa cidade, registram-se as mortes de mais de setenta mil cristãos, incluindo os Santos Quarenta e Dois Mártires de Amório. De longe, o Saque de Amório foi a mais vergonhosa perda de Teófilo, já que Amório era não somente uma das cidades mais populosas e consideravelmente próxima da província imperial como também o berço da dinastia amoriana, iniciada com seu pai Miguel.

O Califa Almotácime, líder do Califado Abássida, passou por Amório e cavalgou pessoalmente até Dorileão, distante apenas duzentos quilômetros de Constantinopla na fronteira da Frígia com a Bitínia, para uma missão de reconhecimento. Como não haviam sinais de novas tropas em sua direção, Almotácime cogitou seguir com suas tropas até Constantinopla, algo que não seria tão difícil levando-se em consideração as habilidades de Teófilo. Pela Providência de Deus, uma conspiração envolvendo seu sobrinho Alabas fê-lo retornar com suas tropas e prisioneiros de guerra à Garameia (atual Iraque), poupando centenas de milhares de vidas entre os romanos. Ainda assim, milhares de prisioneiros morreram no caminho devido à aridez da Capadócia. Cinco anos mais tarde, uma invasão marítima pela Lícia resultou no naufrágio e na morte de todos os guerreiros de Almotácime, que morreria enfermo em 842.

Enquanto Teófilo passava seu tempo exilando cristãos ortodoxos e acumulando fracassos em cada guerra iniciada, Teodora permanecia firme na verdadeira Fé. O pretexto de cuidar de seus filhos permitia-lhe isolar-se nos aposentos imperiais, longe de Teófilo.

Referências

  • São Nicodemos, o Hagiorita. Sinaxário dos doze meses do ano. Tomo I.
  • São Demétrio, Metropolita de Rostóvia. A vida dos santos. Livro VI.
  • São Nicolau, Bispo de Ócrida. O prólogo de Ócrida. Volume I.