Ciro e João, os Anárgiros

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Santos Ciro e João.

Os Veneráveis Santos Mártires Ciro e João, os Anárgiros, e suas companheiras (as quais, Virgens e Mártires Teoctista, Teódota e Eudóxia e Mártir Atanásia; m. 311) foram santos perseguidos por Diocleciano. Ciro e João foram reconhecidos pela taumaturgia e por suas habilidades como médicos. A Igreja os comemora nos dias 31 de janeiro e 28 de junho, este último pela transladação de suas relíquias. Eles são invocados por aqueles que têm falta de sono.

Vida

Ciro era um renomado médico cristão de Alexandria no Egito que tratava de enfermos sem exigir cobrança alguma, curando não só os enfermos de corpo como também os de espírito. Possuía uma frase icônica: “Aquele que deseja evitar a doença deve abster-se do pecado, pois este é muitas vezes a causa daquela.” Pregando o Evangelho, o santo médico converteu muitos pagãos a Jesus Cristo. Durante a Grande Perseguição iniciada pelo Imperador Diocleciano (284–305), Ciro refugiou-se na Arábia, onde entrou para a vida monástica. Não cessou, porém, de curar os doentes através de suas orações, tendo recebido de Deus o dom de curar todas as doenças através do sinal da Cruz.

Naquele tempo, na cidade de Edessa na Síria (atualmente Turquia), vivia o soldado João, um piedoso cristão. Com a perseguição, abandonou seu posto e peregrinou a Jerusalém, onde ouviu sobre Ciro. Desejando buscá-lo, viajou para Alexandria e então para a Arábia, até finalmente encontrá-lo e tornou-se seu fiel discípulo.

Em Alexandria havia um famoso filósofo chamado Gésio. Sua fama não se dava por sua filosofia, mas sim pelo seu renomado conhecimento como mestre da Medicina. Sua sabedoria e reputação, entretanto, não o evitaram de cair no erro da idolatria após falsamente aceitar o Batismo. Gésio zombava dos cristãos, afirmando que erroneamente veneravam a Cristo, e não perdeu a chance de ridicularizar os santos Ciro e João, dizendo que curavam os enfermos através da Medicina, e não por poderes divinos. Quando eram perguntados sobre como curavam os doentes, Gésio argumentava que seus métodos já haviam sido ensinados pelos famosos médicos antigos Hipócrates (460–370 a.C.) e Cláudio Galeno (129–210).

As falácias de Gésio provaram-se mentirosas e inventadas. O filósofo ficou doente, e não conseguia mais mexer seus ombros nem seu pescoço. Então, esforçou-se em vão para curar a si mesmo da mesma forma que havia curado aos outros, usado todos os tipos de pomadas e uma rigorosa dieta de alimentos limpos e cozidos. Após usar todo o conhecimento dos médicos antigos e continuar enfermo, convidou médicos de toda a Alexandria, e estes não conheciam mais nenhum outro método além dos que Gésio já havia experimentado. Os médicos chegaram à conclusão que só Deus poderia ajudá-lo, e aconselharam-no a recorrer aos santos Ciro e João.

Gésio retrucou-os dizendo que os santos não realizavam nada vindo de Deus, mas sim dos livros antigos. Os sábios médicos, então, relataram a ele casos de curas atribuídas aos santos que nunca haviam sido estudadas pela Medicina clássica. Sem conseguir responder-lhes, Gésio calou-se. Gradualmente suas dores começaram a aumentar cada vez mais, e o filósofo finalmente convenceu-se a recorrer aos santos.

Depois de suplicar-lhes por ajuda, os santos apareceram a ele em sonho, e lhe deram um remédio para sua doença. O remédio não só o curou como serviu como meio de castigo porque, embora se considerasse um sábio, provou ser um tolo e completamente insensato. Ainda no sonho, os santos disseram-lhe: “Pega uma sela e veste-a sobre teus ombros, pescoço e garganta, e ao meio-dia contorna o solo sagrado da igreja clamando: ‘Ó! Quão tolo e insensato sou!’ Tua saúde, então, será imediatamente restaurada.” Ao acordar, Gésio acreditou que aquilo era fruto de sua imaginação, e não fez o que os santos lhe ordenaram.

Sua saúde deteriorou ainda mais, e Gésio voltou a clamar pelos santos. Naquela noite, os santos tornaram a aparecer perante ele, mas mandaram-no fazer algo pior. Ordenaram que, junto à sela, pendurasse um grande sino em seu pescoço, e andasse em círculos pela igreja gritando: “Eu sou um idiota!” O filósofo não conseguia entender a relação entre a sela e o sino e como isso iria curá-lo, então ignorou-os e pediu a Cristo que o curasse de sua doença e salvasse-o das fantasias.

Pela terceira vez, os santos tornaram a aparecê-lo, e insistiram que ele fizesse o que haviam comandado nas duas outras vezes, mas com um adendo: usando uma rédea da mesma forma que um cavalo, deveria pedir que um servo o guiasse em círculos pela igreja enquanto o filósofo gritava: “Eu sou um imbecil!” Gésio, ainda pensando que estava louco, mas não querendo provocar a ira dos santos, decidiu obedecê-los. Por isso, colocou a sela sobre os ombros, pendurou um sino em seu pescoço, colocou a rédea na boca e pediu que um de seus servos o puxasse pela igreja, gritando: “Eu sou um imbecil!”

Tendo cumprido a ordem dos santos, Gésio foi curado e recuperou sua saúde. Naquela noite, os santos apareceram a ele, dizendo-o: “Já que pensas que os medicamentos que damos aos enfermos são invenções de médicos, diga-nos em qual manuscrito seus admirados Galeno ou Hipócrates receitaram passar pelo ridículo como tu passastes para ser curado!” Assim os santos mártires, tendo repreendido o caluniador, encerraram seu sonho. Gésio acordou atordoado pela mais sábia repreensão, e depois de louvar seus poderes provenientes de Deus — e não da Medicina — seguiu sua vida são e salvo.

Em outra ocasião, uma criança chamada Teodoro possuía uma deformidade acima de seu nariz, e ansiava em pedir a cura aos santos anárgiros. Certa vez, quando estava nadando, um tubarão mordeu seu calcanhar e puxou-o às profundezas. O menino, clamando pelos santos Ciro e João, foi jogado em terra firme, e quando viu-se, estava curado da deformidade e da mordida do tubarão. Talvez, o tubarão tenha sido um agente divino que arrancou-o o tumor pelas orações dos santos.

Santos Ciro e João no Menológio.

Em 311, os santos souberam da notícia que uma egípcia cristã, Atanásia, fora presa junto com suas três filhas, Eudóxia, de onze anos de idade, Teódota, de treze, e Teoctista, de quinze. Eles então correram para a prisão em Canopo no Egito (atual Abuquir, ao leste de Alexandria), pois sabiam que, se fossem torturadas, poderiam chegar a negar a Cristo. Lá, eles as encorajaram a resistir a tudo o que poderia acontecer com elas. Sabendo disso, Siriano, o eparca da cidade, também os prendeu. Vendo sua firme e destemida confissão de Fé em Cristo, o eparca levou Atanásia e suas filhas para testemunhar a tortura dos santos.

O tirano não os poupou de tortura alguma, mas isso não abalou a Fé das mulheres, que corajosamente confessaram a Cristo. Em 31 de janeiro de 311, após serem açoitadas, as quatro santas confessoras foram decapitadas, recebendo todas a coroa do martírio. Logo em seguida, os santos anárgiros tiveram o mesmo destino.

Pós-vida

Os cristãos enterraram seus corpos numa igreja dedicada a São Marcos, o Evangelista, na mesma cidade. Embora a igreja tenha se tornado um centro de peregrinação, a vila de Canopo provocava medo entre os egípcios, pois a cidade abrigava templos pagãos habitados por espíritos malignos que não hesitavam em aparecer aos habitantes em sonho. Teófilo I, Patriarca de Alexandria (385–412), ansiava pela limpeza desse lugar dos demônios, mas logo veio a falecer. Seu sucessor, São Cirilo I, Patriarca de Alexandria (412–444), pôs em prática seu desejo, orando fervorosamente pela conclusão.

Em 412, um anjo de Deus apareceu ao hierarca em uma visão, ordenando que as veneráveis relíquias fossem transferidas a Menutis, poucos quilômetros ao leste. Sua Santidade realizou o mandamento do anjo e construiu lá uma igreja dedicada aos santos mártires. Em 28 de junho de 414, suas sagradas relíquias foram transferidas para a igreja. São Cirilo conseguiu também destruir o templo pagão à deusa Ísis, e erigiu um santuário dedicado aos santos em c. 427.

A partir de então, o lugar foi purificado da presença do inimigo, e, pelas orações dos santos mártires Ciro e João, começaram a ocorrer vários milagres e curas dos enfermos, trazendo grandes levas de peregrinos à cidade. Do que se tem registro, Amônio, filho de Juliano, o prefeito de Alexandria, foi curado de tuberculose, outros foram curados de cegueira, doenças no pulmão, envenenamento e edemas através da veneração de suas relíquias. Era frequente ver pessoas dormirem ao lado de seus túmulos na esperança de receberem uma visão dos santos (essa prática é denominada incubação). Nessas visões, ou os santos receitavam o tratamento ou eles próprios curavam o fiel enquanto dormia.

Igreja de Santa Passera.

Através dos inúmeros milagres realizados pelos anárgiros, muitos renunciaram ao paganismo e aceitaram a Fé cristã. O nome de Canopo foi mudado para Abuquir (Abba Kyr) em honra a São Ciro e, ainda na era de São Cirilo, todos os templos pagãos em Menutis foram destruídos. Em 634, em meio à heresia monotelista apoiada por Cirilo, Patriarca de Alexandria (631–643), suas relíquias foram levadas para a Igreja de Santa Passera, em Roma. Seu nome é uma corruptela de [Ab]bas Cyrus.

No século VII, São Sofrônio, Patriarca de Jerusalém (634–638), foi curado de uma enfermidade na visão a qual os médicos diziam ser incurável através de uma aparição dos dois santos. Ciro curou um de seus olhos com o sinal da Cruz; João curou o outro beijando seu olho. Para demonstrar sua gratidão, São Sofrônio escreveu um detalhado registro de seus setenta milagres junto de um louvor aos santos. Em algum ponto na história, suas relíquias foram transferidas para Munique na Alemanha.

Hinos

Tropário

(Tradução livre)

Tu nos deste os Teus mártires Ciro e João, /
cujos milagres foram como muralhas invencíveis. /
Por suas orações, frustra os esquemas dos pagãos, /
e fortalece a Fé dos cristãos ortodoxos, /
pois só Tu és Bom e amas a humanidade.

Condáquio

(Tradução livre)

Recebendo o dom da taumaturgia através de Sua Graça, /
vós mostrastes os milagres ao mundo incessantemente. /
Extirpastes nossas paixões com a cirurgia divina, /
ó divinamente sapiente Ciro e glorioso João, /
pois vós sois em verdade médicos divinos.

Referências

  • São Nicodemos, o Hagiorita (1819). Sinaxário dos doze meses do ano. Tomo segundo.

Ligações externas