Teodoro, o Recruta

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São Teodoro.

O Santo Megalomártir Teodoro, o Recruta (também: o Tiro ou de Amásia; m. 306), foi um louvado mártir da Grande Perseguição sob Galério e um grande intercessor contra a apostasia. Sua abençoada memória é celebrada pela Igreja no primeiro sábado da Grande Quaresma, no dia de seu martírio, 17 de fevereiro, e na Festa de Todos os Santos Militares, em 8 de julho. Várias igrejas e locais do Oriente grego foram consagradas a São Teodoro (esse) e a São Teodoro, o Estratelata; por isso, receberam o nome de Άγιοι Θεοδώροι (Santos Teodoros). No Brasil, São Teodoro é o onomástico de Dom Teodoro, Bispo do Rio de Janeiro.[nota 1]

Vida

Teodoro nasceu no século III, vindo de uma família cristã na eminente cidade de Amásia no Ponto (atual norte da Turquia). Em sua juventude, durante a Grande Perseguição (303–313), foi recrutado à legião de sua cidade, leal ao exército do Imperador Diocleciano (284–305), e lá mantinha sua Fé em segredo; não por falta de coragem, mas por não ter ainda recebido um sinal divino para oferecer-se em testemunho a Jesus Cristo.

Certa vez, ainda na Amásia, o édito de Diocleciano tomou vigor, e todos os seus habitantes foram obrigados pelas autoridades a oferecer sacrifícios aos ídolos pagãos. Teodoro protestou, e foi levado ao oficial Brincas, o qual indagou-o quanto a não respeitar as ordens para oferecer sacrifícios. Teodoro, então, cheio do Espírito de Deus, disse: “Sou cristão, e não aceitarei a ordem de oferecer sacrifício às imagens malignas; pois tenho como Rei Cristo no Céu.” Brincas desconsiderou sua confissão e disse: “Pega as tuas armas, Teodoro, e aceita o serviço militar. Sacrifica aos deuses imortais e obedece aos vitoriosos imperadores. Quase todos nessa cidade são cristãos e mesmo assim obedecem.”

Teodoro respondeu: “Cada um sabe como deve servir. Mas eu sirvo ao meu Senhor e Rei dos Céus e ao Seu Filho unigênito, Jesus Cristo, meu único Imperador.” Possidônio, outro oficial, indagou-o se seu Deus possuía um Filho e se eles poderiam O conhecer. “Seu Filho é a Verdade pela qual todas as coisas foram feitas. Queria eu que Ele vos desse tal compreensão que O reconhecessem.” Possidônio tornou a perguntar: “Se O conhecermos, poderemos nós deixar o imperador terreno e segui-Lo?” E Teodoro: “Não há nada que vos impeça de abandonar as trevas e a confiança posta no rei terreno para seguir o Senhor, o Rei vivo, celestial e eterno.”

Brincas decidiu “dar um tempo” a Teodoro para que ele pensasse e se convertesse ao que era melhor. O confessor, entretanto, decidiu passar todo esse tempo — dias — em oração. Enquanto isso, Brincas ordenava que o resto da legião adentrasse a cidade e capturasse os cristãos para levá-los à prisão. Quando soube, São Teodoro dirigiu-se à prisão, ensinando-os a perseverança e o caminho da salvação: “Não temais estas torturas que vos infligirão de modo a que neguem Jesus Cristo, nosso Senhor e Rei celestial.”

Chegada a noite, São Teodoro pegou lenha, esperou um momento oportuno e adentrou o templo de Reia, a “mãe dos deuses”, incendiando-o. O ídolo de Reia voltou ao pó junto com o templo. Crônides, um contabilista pagão, viu o que São Teodoro havia feito, capturou-o e levou-o no raiar do sol ao eparca Públio, dizendo: “Essa praga de recruta entrou em nossa cidade, pôs fogo ao templo que nossos ancestrais fizeram à mãe dos deuses e os profanou! Assim, agarrei e trouxe-o a Vossa Alteza para receber sua pena pelos seus ousados feitos, de acordo com as ordens de nossos vitoriosos imperadores.”

Julgamento

Públio convocou Brincas e interrogou-o se havia dado a liberdade de incendiar os templos pagãos a Teodoro. Ele respondeu: “Exortei-o muitas vezes, e dei-lhe a anistia para que pensasse consigo mesmo e decidisse oferecer o sacrifício aos deuses. Se ele foi culpado disso, ó jurista, condena-o de acordo com a tua autoridade como alguém que enganou os deuses e desprezou as ordens de nossos imperadores triunfantes.”

O eparca, então, ordenou que São Teodoro fosse trazido perante ele e perguntou-lhe por que havia ateado fogo à deusa em vez de sacrificar-lhe com incenso e libações (derramamento de sangue). O santo confirmou: “Não nego o que fiz. Queimei-a com fogo. Tal é vossa deusa e seu poder que até o fogo da lenha pode tocá-la e queimá-la.” Embebido de fúria, Públio ordenou que fosse espancado, dizendo: “Não me responda com teus discursos. As mais amargas torturas esperam por ti para te obrigar a obedecer aos imperadores.”

Após ser espancado, São Teodoro permaneceu firme em sua confissão: “Não me rendo a ti, nem temo teus punimentos, por mais temerosos que sejam. Então, faze o que quiseres, pois a esperança na justiça clama que eu seja confiante na coroa que meu Senhor Jesus Cristo preparou para mim.” O jurista ainda clamou que sacrificasse aos deuses para ser salvo das torturas que haviam sido preparadas para ele, e o santo respondeu-lhe: “As torturas que me trazes não me assustam. Meu Senhor e Rei Jesus Cristo está diante de mim; Aquele que me resgatará dos vossos castigos, Aquele que não vedes pois sois cegos de coração.”

Irado como um leão, o jurista ordenou que o santo fosse levado à masmorra escura da prisão para morrer de fome. Na primeira noite, o Senhor apareceu diante dele e disse: “Tem coragem, Meu servo Teodoro, porque Eu estou contigo. Não aceites a comida ou a bebida daqueles homens, pois o alimento inesgotável espera por ti nos Céus.” E ascendeu. São Teodoro começou a cantar salmos de alegria ao Senhor, e quase toda a prisão ouvia diversas vozes cantando com ele. Quando os guardas olharam pela janela, viram uma multidão vestida de mantos brancos cantando junto com o santo. A porta, entretanto, continuava selada.

Os guardas apavoraram-se e correram ao jurista, informando-o sobre o ocorrido. Ele queria ver isso com seus próprios olhos, e correu até a cela, onde realmente ouviu as vozes. Pensando que tratava-se de outros cristãos que haviam invadido a masmorra, ordenou que os soldados cercassem a prisão enquanto ele abrisse a porta. O jurista entrou, e não viu ninguém senão São Teodoro caído ao chão. Imediatamente, um grande temor apoderou-se do jurista e dos soldados, e todos começaram a perder seus sentidos. Então, trancaram a porta e afugentaram-se da prisão. Após o ocorrido, decidiram que um pão e um copo de água fossem dados ao confessor diariamente. São Teodoro, entretanto, foi fiel em Cristo e não aceitou seus alimentos, dizendo a si mesmo: “Cristo, meu Senhor e Rei, me alimenta.”

Numa manhã, o eparca ordenou que São Teodoro fosse novamente levado em julgamento, e disse: “Salva-te das torturas e oferece os sacrifícios aos deuses, ó Teodoro, para que eu possa escrever aos imperadores, os verdadeiros senhores deste mundo, que tu te tornaste um sacerdote e nosso companheiro, por quem daremos grandes honras.” Olhando para o céu e fazendo o sinal da Cruz, Teodoro respondeu-o: “Mesmo que queimes minha carne com fogo, inflijas uma multidão de torturas e me entregues à espada, não negarei meu Senhor.”

Condenação

São Teodoro no Menológio de Basílio II.

Públio e Brincas chegaram em um acordo, e ordenaram a tortura de São Teodoro. Ele foi amarrado a uma tora de madeira, e teve seus lados dilacerados por garras de ferro até que seus ossos das costelas ficassem visíveis. Durante a tortura, o mártir cantava o Salmo 34:

Bendirei continuamente o Senhor, Seu louvor não deixará meus lábios.

Admirado com sua resistência, Públio dizia: “Não tens vergonha, ó mais miserável dos homens, de ter esperança em um Cristo que padeceu de forma tão terrível, a ponto de tu render-te sem razão a tais torturas?” São Teodoro retrucou-o, dizendo que sua loucura era a de todos os que invocam o Nome de Jesus Cristo. Sem mais esperanças, o eparca interrogou: “Estás disposto a oferecer o sacrifício ou queres ser torturado ainda mais por mim?” Teodoro deu sua última resposta: “Ó mais perverso dentre os homens, portador de todo o mal, filho de satã e digno da obra do demônio, não temes o Senhor que lhe deu este poder, pelo qual reis governam e tiranos obtêm terras, mas me obrigas a abandonar o Deus vivo e adorar pedras inanimadas?” O jurista ainda disse: “Que queres? Estar conosco ou com teu Cristo?” E São Teodoro, com uma enorme alegria, disse: “Estive, estou e estarei com meu Cristo.”

Vendo que o santo mártir não seria vencido com torturas, Públio finalmente decretou: “Ordeno que Teodoro, por não obedecer ao comando dos vitoriosos imperadores e ao poder dos deuses, por acreditar em Jesus Cristo, crucificado sob Pôncio Pilatos — como os judeus dizem —, seja rendido às chamas.” Imediatamente, os torturadores começaram a buscar lenha, e uma multidão correu até São Teodoro para tocar em seu corpo antes de sua paixão. Aos soldados que queriam furar-lhe o corpo para matá-lo de uma forma menos dolorosa, disse: “Aquele que me deu resistência nas minhas torturas também me concederá que eu suporte a força das chamas.” Então, apenas o amarraram. Incapaz de fazer o sinal da Cruz com suas mãos atadas, São Teodoro recitava a fórmula trinitária e como um cordeiro aceitou ser o holocausto a Deus, olhando para os céus e dizendo:

“Senhor Deus Todo-Poderoso, Pai de Teu bendito Filho Jesus Cristo, por Quem recebemos a sabedoria de Ti, Deus de virtudes, de todas as criaturas e de todas as nações de homens justos que vivem em Tua presença, bendigo a Ti que fizeste-me digno neste dia e hora de ser contado dentre os santos mártires ante Cristo Salvador na Ressurreição e pela vida eterna do corpo e da alma pelo dom do Espírito Santo. Hoje hei de ser levado dentre os mártires à Tua vista como um valioso e legítimo sacrifício, pelo qual de antemão provastes e descobristes sem defeito. Pois Tu és o verdadeiro Deus, e louvo a Ti em conformidade, rogando e suplicando através de nosso Senhor Jesus Cristo, Teu Filho amado. Concede também, ó Senhor, que aqueles que foram detidos em minha companhia também alcancem o Teu ramo.”

Olhando para a multidão, viu Cleônico, que havia sido recrutado ao exército junto com ele, chorando. E gritou: “Cleônico, estou à tua espera, corre e ajunta-te a mim! Nós jamais nos abandonamos nesta vida terrena, então por que nos separarmos na vida celestial?” Então, proferiu suas últimas palavras: “Ó Senhor Jesus Cristo, mediador entre Deus e os homens, agradeço e louvo-Te por teres me dignificado a vencer essa competição, e glorifico o Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.”

Terminada sua oração, os torturadores acenderam o fogo e jogaram o santo mártir entre as madeiras. Em seguida, uma chama tomou a forma de um arco, como a vela de um barco enchida pelo vento, e cercou-o. Não se via seu corpo sendo queimando, mas sim como um pão sendo cozido, até que o Espírito Santo de Deus chegou, e São Teodoro, ileso no meio das chamas, louvou e glorificou a Deus. Então, em 17 de fevereiro de 306, entregou seu espírito. As nuvens se abriram, e uma agradável fragrância desceu sobre o ar, até que ouviu-se uma voz do alto: “Vem, Meu amado Teodoro, entra na alegria de teu Senhor, pois fielmente completaste o curso de tua vida.”

Pós-vida

Depois de um tempo, uma nobre mulher de nome Eusébia procurou pelo corpo do santo mártir. Embalsamando-o com vinho e preciosos cremes, envolveu-o com panos limpos e colocou-o num caixão. Então, levou-o para sua propriedade em Euceta, há um dia de distância de Amásia, e ordenou a construção de uma igreja acima do túmulo. Todos os dias era celebrada a comemoração a São Teodoro, e muitas pessoas eram curadas de espíritos malignos e diversas enfermidades através das intercessões do mártir.

Algumas décadas depois, durante o reinado de Juliano, o Apóstata (355–363), o paganismo tornou a ser religião de Estado, e o ímpio imperador tentou subverter a Fé cristã. Dias antes do início da Grande Quaresma, Juliano ordenou que o eparca de Constantinopla retirasse todos os alimentos apropriados para o jejum dos mercados e substituísse-os por pão e bebidas. Ambos, entretanto, seriam antes aspergidos em sangue de sacrifícios aos deuses pagãos; e assim o eparca o fez.

Deus, cujo Olho que tudo vê apanha os sábios deste mundo em sua astúcia e sempre provê aos Seus servos, entretanto, enviou Seu grande campeão Teodoro a Eudóxio, Arcebispo de Constantinopla (360–370). De pé diante do herético arcebispo, São Teodoro proclamou: “Ergue-te e congrega o rebanho de Cristo o mais rápido possível. Ordena-os a não comprarem em circunstância alguma nada que esteja nos mercados, porquanto tudo foi poluído pelo mais impiedoso dos imperadores com o sangue de suas oferendas.” Há de se notar que o santo não apareceu durante um sonho, mas sim enquanto o arcebispo estava acordado.

Coliva preparada no Mosteiro de Vatopedi.

Intrigado, Eudóxio perguntou como poderiam aqueles que não tinham em abundância em seus lares evitarem comprar comida, e São Teodoro respondeu-o: “Alimenta-os com coliva para poupá-los nos tempos de necessidade.” Mais confuso ainda, o arcebispo não fazia ideia do que significava aquela palavra desconhecida, “coliva”, e perguntou o que era. Também não perdeu a oportunidade de perguntar quem era aquele homem com quem falava. “Trata-se de trigo cozido, e com esse nome tu hás de encontrar sua receita em Euceta, a cidade cujos habitantes louvam a mim, Teodoro, o mártir por Cristo, Aquele que me enviou em vosso socorro.” Então, partiu. Eudóxio apressou-se a anunciar o que tinha visto à multidão, e assim seu rebanho foi preservado ileso das maquinações do inimigo.

Quando Juliano soube que havia sido envergonhosamente exposto e que nem uma só alma havia caído em seu truque, revogou seu édito, e os alimentos voltaram a ser comercializados. No sábado, os fiéis deram graças ao santo mártir, e alegremente celebraram seu memorial naquele dia. Essa tradição foi preservada até os dias atuais pela Igreja, de forma que o milagre de São Teodoro é celebrado em todo primeiro sábado da Grande Quaresma com a preparação da coliva para os fiéis.

No século V, uma grande igreja em honra a São Teodoro foi construída em Constantinopla, próxima à Basílica de Santa Sofia. Junto a ela, havia uma escola e uma capela dedicada a São João Batista, cuja festa em 7 de janeiro era grandemente celebrada. Sua história é obscura, mas a data de sua consagração foi incluída nos sinaxários no dia 5 de novembro.

No século VII, os muçulmanos sob o Califa Moáuia I saquearam Euceta e destruíram a Igreja de São Teodoro. No século X, a igreja foi reconstruída e Euceta foi renomeada para Teodorópolis. No século XI, os sunitas seljúcidas finalmente dominaram a região, e o jugo muçulmano nunca mais chegou ao fim.

Relíquias de São Teodoro na Igreja de São Nicolau em Bríndisi.

Já no século XIII, durante o Cerco de Constantinopla de 1204, as relíquias de São Teodoro foram saqueadas pelos cruzados e postas numa embarcação com destino a Veneza, no litoral norte da Itália. Entretanto, assim que o navio adentrou o Mar Adriático, ficou parado na costa de Bríndisi na Apúlia (litoral sudeste), e correnteza nem vento conseguiam fazê-lo continuar viagem. O navio só pode seguir viagem após deixarem as relíquias num bote. As ondas levaram-no até a costa da cidade, e um grupo de pescadores descobriu as relíquias. Em seguida, ficaram em uma das catedrais de Bríndisi até o século XVIII.

Em Bríndisi, há uma igreja ortodoxa dedicada a São Nicolau, Bispo de Mira. Todos os anos, durante a festa de São Teodoro (25 de agosto a 3 de setembro), as relíquias são transladadas até a igreja para a realização da Divina Liturgia e de um Ofício de Súplicas. Durante o festival, diversos eventos civis e religiosos são feitos: procissões, concertos, fogos de artifício e um desfile de barcos em memória aos pescadores que encontraram as relíquias do padroeiro. O barco-chefe carrega as relíquias de São Teodoro.

Igreja de São Teodoro em Roma. Para mais imagens, visite a categoria no Wikimedia Commons.

Em 2004, o Papa João Paulo II de Roma (1978–2005) presenteou o Patriarca Bartolomeu de Constantinopla e a comunidade grega na Itália com a milenar Igreja de São Teodoro em Roma. Essa igreja foi construída no século VI sob os escombros de um templo pagão na estrada que ligava o Fórum Romano ao Fórum Boário e foi promovida por Santo Agatão, Papa de Roma (678–681), a uma das sete diaconias originais de Roma.

Hinos

Tropário

(Cantado pela Catedral Ortodoxa Antioquina de São Nicolau, em tom 2)

Como são grandiosos os feitos da Fé! /
Na fonte das chamas, o santo Mártir Teodoro exultava, /
como junto de uma fonte de água repousante. /
Pois, consumido pelo fogo do holocausto, /
ele foi oferecido à Trindade Santíssima como um pão agradável. /
Pelas suas orações, ó Cristo nosso Deus, tem piedade de nós.

Condáquio

(Tradução livre)

Tua Fé em Cristo serviu de couraça ao teu coração. /
Com Sua ajuda, dominaste o poderio do adversário. /
E assim foste coroado na eternidade com o diadema celeste.

Referências

  • São Nicodemos, o Hagiorita (1819). Sinaxário dos doze meses do ano. Tomo segundo.

Notas

  1. Tiro é a latinização do termo grego τήρων, que significa “recruta”.

Ligações externas