Perpétua de Cartago

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Santa Perpétua e seus companheiros.

A Santa Mártir Perpétua de Cartago e seus companheiros (os quais, Felicidade, Sátiro, Revogado, Saturnino e Segundo; m. 203) foram martirizados sob Sétimo Severo na África. Sua história foi composta tanto pela própria santa em seu diário como por uma testemunha de seu martírio. A Igreja celebra sua memória nos dias 1º de fevereiro e 7 de março.

Vida

Víbia Perpétua nasceu em uma rica família pagã de Cartago na África (atual Tunísia) com outros dois irmãos em 181, na era do santo Papa Eleutério de Roma (174–189). Em sua juventude, recebeu uma excelente educação, casou-se e teve um filho. Pouco tempo depois, seu esposo faleceu, e Perpétua passou a crer em Jesus Cristo aos vinte e dois anos de idade, sendo logo capturada e enviada à prisão junto com sua criança de um ano. Naquele tempo, o Imperador Sétimo Severo (193–211) havia publicado um édito que proibia a conversão ao cristianismo no império. Acompanharam-na no cárcere um de seus irmãos, Sátiro, e seus servos Felicidade, Revogado, Saturnino e Segundo.

Mesmo com seu pai apelando aos seus sentimentos maternais, a viúva recusou-se a oferecer sacrifícios aos deuses pagãos. Aos seus apelos, Perpétua disse: “Pai, vês este jarro no chão? Pode ele ser chamado de qualquer outro nome que não corresponda ao que ele já é? Pois bem, da mesma forma não me posso chamar de outra coisa que não seja o que sou, cristã.” Seu pai, então, atirou-se sobre ela com raiva e, dominado por argumentos diabólicos, foi-se embora da prisão.

No cárcere ministravam os diáconos Tércio e Pompônio. Foi através deles que Perpétua aceitou o Santo Batismo, e seus cinco companheiros tornaram-se seus catecúmenos. Os diáconos também conseguiram fazer com que eles fossem retirados da escura e fria masmorra e levados para uma parte mais aberta da prisão, onde Perpétua pôde amamentar seu filho enfraquecido pela fome e consolar sua família.

De volta à masmorra, Deus fortaleceu seu corpo e aliviou-a da ansiedade por seu filho, de forma que aquele lugar tornou-se como um palácio à viúva. Sátiro disse: “Minha querida irmã, já te encontras numa posição de grande dignidade, e acredito que podes pedir por uma visão, para que saibamos se nosso destino será a paixão ou a fuga.”

Perpétua acatou sua sugestão e, em sonho, viu uma escada dourada tão alta que ultrapassava as nuvens, porém tão estreita que as pessoas só poderiam subi-la uma a uma. Afixados aos lados da escada, haviam todos os tipos de armas: espadas, lanças, garras e punhais, de forma que quem subisse-a descuidosamente e olhasse para trás fosse despedaçado pelas lanças. Debaixo da escada, havia um dragão de tamanho inigualável que amedrontava qualquer um que tentasse ascender a escada.

Sátiro foi o primeiro a subir e, chegando no topo, disse: “Perpétua! Estou esperando por ti, mas toma cuidado para que não te sejas pega pelo dragão.” Repetindo o Nome de Jesus Cristo, a viúva dirigiu-se à escada, e pisou na cabeça do dragão acoado enquanto subia os degraus. Quando chegou lá em cima, Perpétua viu um imenso jardim, e no meio dele havia um Homem de Cabelos brancos e alta estatura. Ele estava sentado com roupas de pastor ordenhando Suas ovelhas, e ao Seu redor haviam milhares de seres de vestes brancas. Ao levantar Sua Cabeça, o Homem olhou para a viúva e chamou-a: “Minha filha, tu és bem-vinda.”

Quando Perpétua se aproximou, o Homem transformou o leite ordenhado em queijo e deu-lha. Ela comeu, e todos os que estavam ao redor disseram: “Amém.” À essa palavra Perpétua despertou e, ainda com o gosto em sua boca, correu para relatar o sonho ao seu irmão. Ambos entenderam que havia de ser uma paixão, e deixaram de ter quaisquer esperanças neste mundo.

Alguns dias depois, soube-se que os confessores estariam prestes a serem interrogados. Ao saber da notícia, seu pai correu até a prisão e, exausto, beijou suas mãos, jogou-se aos seus pés e em lágrimas clamou: “Minha filha, tem piedade dos meus cabelos grisalhos, tem piedade de teu pai, se é que ainda sou digno de ser chamado assim por ti! Se estas minhas mãos trouxeram-te até a flor da idade, se eu te preferi a todos os teus irmãos, não me entregues ao escárnio dos homens. Tem consideração pelos teus irmãos, tem consideração pelas tuas mãe e tia, tem consideração pelo teu filho que não poderá crescer contigo! Despoja-te desta tua coragem e não nos traga a destruição, pois todos nós seremos cativos em teus sofrimentos.” Perpétua chorou, não por suas palavras, mas por ser o único de sua família que não se regozijaria com sua paixão. Ela confortou-o, dizendo: “Naquele cadafalso, o que Deus quiser acontecerá. Não somos colocados em nosso próprio poder, mas no de Deus.” Seu pai partiu amargurado, mas Perpétua perseverou em sua oração ininterrupta.

Condenação

Certa noite, enquanto estavam comendo, os confessores foram subitamente amarrados e levados para o interrogatório no centro da cidade. A notícia chegou a toda a vila, e diversas pessoas reuniram-se ao redor deles. Era 203, e o procônsul da África Minício Opimiano havia acabado de morrer; assim, Hilarião, o procurador, tomou o poder de decidir entre a vida e a morte dos julgados. Quando todos os outros já haviam sido interrogados, Hilarião chamou Perpétua, e seu pai apareceu diante dela com seu filho, suplicando: “Tem piedade do teu menino!”

Hilarião, vendo-os, disse: “Poupa os cabelos brancos de teu pai, poupa a infância de teu filho. Oferece o sacrifício para o bem-estar dos imperadores.” Ela respondeu: “Não o farei.” O procurador ainda perguntou se ela era cristã, e ela afirmou. Hilarião, então, atirou seu pai ao chão, e ordenou que ele fosse espancado com varas. A dor de seu pai refletia-se nela como se ela mesma estivesse sendo torturada. Em seguida, o procurador condenou que os seis seriam futuramente jogados aos animais selvagens, e foram levados para uma prisão improvisada.

Alguns dias depois, enquanto oravam, veio à mente de Perpétua Dinócrates, seu esquecido e miserável irmão que falecera aos sete anos de idade vítima de um câncer. Perpétua lamentou-se e sentiu a dignidade de ter sido preservada da doença por Deus; assim, começou a suplicar e chorar por seu falecido irmão a Deus.

Naquela mesma noite, o Altíssimo concedeu-lha mais uma visão, e nela Perpétua via Dinócrates saindo de um lugar sombrio e nebuloso junto a várias outras pessoas. Sua pele estava ressecada de tamanha sede, e sua face, pálida, encardida e com o rosto devorado pelo tumor. Entre os dois, havia um hiato para que nenhum pudesse se aproximar do outro. Em frente a Dinócrates havia um tanque cheio de água, e ele esforçava-se para alcançá-lo, mas sua altura era menor que a do tanque. O sofrimento de seu irmão era perceptível à viúva, mas ela sabia que somente sua oração traria ajuda a ele, de forma que seu nome esteve presente em suas orações por todos os dias que se seguiram.

No dia anterior ao 7 de março de 203, aniversário de Geta, filho de Sétimo Severo e futuro imperador, Perpétua dedicou seu último dia persistindo em oração o tempo inteiro, lamentando-se e gemendo por seu irmão. De noite, teve uma nova visão: a escuridão havia sido dissipada pela luz, e Dinócrates estava completamente limpo. O tanque havia diminuído de tamanho até a cintura de seu irmão, e no lugar do tumor havia apenas uma cicatriz. Alguém tirava a água incessantemente, e uma taça estava na beira do tanque; Dinócrates bebeu-a por completo, saciou-se, e afastou-se para brincar à maneira das crianças. Assim, Perpétua entendeu que o menino havia sido poupado da punição.

Alguns dias antes, Pudêncio, um soldado da prisão, começou a ter grande estima para com os confessores e, percebendo a presença de Deus neles, permitiu que pessoas de fora pudessem se encontrar com eles. Uma dessas pessoas foi novamente seu pai que, desgastado de sofrimento, jogou-se perante a filha, pôs-se a arrancar sua barba e disse palavras capazes de comover toda a criação. Perpétua entristeceu-se muito, mas isso não a convenceu de desistir.

A última visão

Santa Perpétua.

Na noite anterior ao juízo no anfiteatro, logo após o sonho com Dinócrates, Perpétua viu Pompônio bater forte na porta da prisão. Ela abriu a porta ao diácono, o qual estava vestido com um manto branco e sandálias, ambos ricamente ornamentados, e disse: “Perpétua, estamos à tua espera, vem!” Então, segurou a mão da viúva sonolenta e levou-a a lugares perigosos e sinuosos até chegar ao centro do anfiteatro. “Não temas, estou contigo e irei te ajudar!” E partiu. Nas arquibancadas, havia um número esplêndido de espectadores, todos aterrorizados com um egípcio de aparência horrível e seus companheiros, ambos prestes a confrontá-la. Ela não estava sozinha, várias crianças começaram a se juntar a ela para esfregar óleos em seu corpo, como era costume aos gladiadores. Quando viu, não era mais uma mulher, mas sim um gladiador.

Então, um Homem mais alto que o anfiteatro inteiro apareceu. Ele vestia uma túnica e um manto púrpura entre duas faixas que cruzavam Seu Peitoral, além de duas sandálias de prata e ouro. Ele carregava um bastão, simbolizando o treinador dos gladiadores, e um ramo verde sobre o qual pendiam maçãs douradas. Houve um silêncio, e Ele disse: “Este egípcio, se vencer esta mulher, mata-la-á à espada; esta mulher, se o vencer, receberá o ramo.” E então, desapareceu.

Ambos começaram a se enfrentar. Perpétua golpeava o rosto do egípcio com seu calcanhar, enquanto este tentava feri-lo. Ela foi jogada ao ar e, segurando-se nele, espancou-o até chegar ao chão. Finalmente, empurrou-o com a cara na terra e pisou sobre sua cabeça. A arquibancada gritava de louvor, e as crianças exultavam. O Treinador apareceu e deu-lhe um beijo, dizendo: “Minha filha, a paz esteja contigo.” Ele entregou-lhe o ramo e ela dirigiu-se gloriosamente à cela dos sobreviventes. E acordou. A viúva entendeu que ela não havia de lutar com as bestas selvagens, mas com o próprio diabo. Mesmo assim, sua vitória seria certeira.

Naquela mesma noite, Sátiro também teve uma visão enquanto dormia. Todos já haviam sofrido nas mãos dos torturadores, e seus espíritos estavam sendo carregados por quatro anjos em direção ao oriente. Suas mãos, entretanto, não os tocavam, mas seus corpos subiam suavemente. Quando já estavam afastados do mundo, passaram a ver uma imensa região de luz, e Sátiro disse a Perpétua, que estava ao seu lado: “Isto é o que o Senhor nos prometeu. Nós recebemos Sua Promessa.”

Os mártires continuaram subindo e aproximando-se da luz, até começarem a ver um vasto jardim, cheio de árvores floridas e flores de todas as espécies. As árvores eram imensas, altas como ciprestes, e suas folhas caíam incessantemente. Outros quatro anjos ainda mais radiantes e gloriosos os viram, prestaram-lhes honras e disseram aos outros: “Aqui estão eles! Aqui estão eles!” Os quatro anjos que os levavam temorosamente puseram-nos no chão, e os mártires começaram a andar por um longo caminho. Durante a caminhada, encontraram Jocundo, Saturnino e Artáxio, queimados vivos sob a mesma perseguição, e Quinto, martirizado dentro da prisão. Perguntaram-lhes onde estavam seus outros companheiros mas, antes que pudessem ser respondidos, os anjos disseram-lhes: “Vinde primeiro, entrai e saudai vosso Senhor.”

Quando chegaram ao fim do caminho, havia uma edificação cujas paredes eram tais como se fossem construídas de luz; e diante da porta haviam outros quatro anjos que vestiam aqueles que adentravam o lugar com mantos brancos. Após serem vestidos, os mártires entraram com muita admiração e viram a luz plena. Ouviam vozes que diziam sem cessar: “Santo, Santo, Santo!” E no meio daquele lugar viam um Ancião sentado, de Cabelos brancos como a neve e com um jovem Rosto. À Sua direita e à Sua esquerda estavam vinte e quatro outros anciãos e, atrás deles, muitos outros.

Os mártires apresentaram-se perante Seu Trono, e os anjos levantaram-nos até o Ancião. Eles O beijaram, e Ele passou Sua Mão sobre os seus rostos. Os outros anciãos disseram-lhes: “Levantemo-nos”, e beijaram-se uns aos outros. Em seguida despediram-nos: “Ide e desfrutai.” Sátiro disse: “Perpétua, tens o que desejas.” E ela: “Graças a Deus, que, assim como eu estava em carne, ainda mais alegre estou aqui, em espírito.”

Enquanto saíam do majestoso lugar, viram o bispo e o presbítero Aspásio, e ambos estavam cabisbaixos. Eles se jogaram aos seus pés e os disseram: “Restaurai a paz entre nós, porque vós se fostes e nos deixastes assim!” Perpétua espantou-se com a ação e retrucou: “Não sois vós nosso pai e nosso presbítero para vos lançardes aos nossos pés?” Eles se prostraram, os abraçaram e sentaram-se abaixo de uma árvore do jardim para conversar. Logo em seguida, os anjos apareceram perante eles e disseram: “Deixai-os em paz para que se revigorem. Se tiverdes alguma dissensão entre vós, perdoai-vos uns aos outros. Repreende o teu povo, porque vêm a ti como se tivessem voltado de um circo, e disputam sobre assuntos mundanos.” E os expulsaram como se tivessem fechado as portas daquele Paraíso. Naquele lugar, começaram a reconhecer diversos companheiros de prisão martirizados. Um aroma indescritível os servia de alimento e os satisfazia. Então, Sátiro acordou — com grande alegria.[nota 1]

Testemunho

“Esses foram os atos de meu martírio até o dia anterior aos jogos. Para os atos do dia dos jogos, deixo que outro faça o relato se achar apropriado.”

Assim foi o fim do diário de Santa Perpétua, escrito em primeira pessoa até o seu último dia na prisão. O restante do registro de suas vidas foi escrito pelas testemunhas de seu martírio. São Segundo foi martirizado à espada enquanto ainda estava na prisão, sendo poupado das bestas selvagens. Quanto a Felicidade, esta estava gestante de oito meses, e lamentava-se pois, pela lei, não poderia ser punida. Além disso, seus companheiros também entristeceram-se por deixar uma tão grande amiga sozinha no caminho da mesma esperança. Assim, unindo suas súplicas, todos derramaram suas orações a Deus durante três dias (o martírio aconteceria no quarto). No último dia, as dores de parto milagrosamente recaíram sobre Felicidade.

Seu trabalho de parto foi sofrido e doloroso, e Santa Felicidade parecia não aguentar mais. Alguns dos guardas inferiores da prisão disseram: “Tu, que agora estás em tal sofrimento, que farás quando fores lançada aos animais os quais tu desprezaste quando não sacrificaste aos deuses?” E ela: “Eu agora sofro o que sofro, mas naquele dia haverá Alguém dentro de mim para suportar a dor em meu lugar, porque eu estarei sofrendo por Ele.” Assim, Felicidade deu à luz uma menina, que foi criada a partir de então por uma piedosa cristã como se fosse sua própria filha.

Alguns dias antes, devido a um falso alerta de que os cinco confessores restantes poderiam ser abduzidos da prisão por alguma espécie de feitiço, a prisão havia entrado em cárcere severo. Diante disso, Perpétua encarou o juiz da prisão e disse: “Por que não nos permite espairecer de vez em quando? Não somos os mais célebres entre os criminosos? Acaso não somos importantes até para César [Geta], em cujo aniversário enfrentaremos os animais? Não seria melhor para tu se nos apresentasse naquele dia com uma aparência não tão deplorável?” O juiz envergonhou-se e, repreendido, ordenou que os confessores fossem tratados de maneira mais gentil. Assim, a entrada da prisão foi aberta, e eles puderam espairecer com os livres. A essa altura, até o chefe dos carcereiros já havia secretamente se convertido a Cristo.

Na véspera dos jogos, quando ceavam sua última refeição (chamada de banquete gratuito ou liberal), transformaram a ceia num ágape. Com a mesma firmeza de sempre, trocavam palavras com quem participava da mesa, alertando-os acerca do Juízo e testemunhando sua alegria no sofrimento. Sátiro censurava-os: “Acaso o dia de amanhã não será suficiente para vós? Por que estais tão ávidos por observar estupefatos aqueles que vós odiais? Hoje sois nossos amigos, amanhã, nossos inimigos! Prestai, entretanto, bastante atenção aos nossos rostos, para poderdes reconhecer a cada um de nós no grande dia.” Com isso, todos saíram repreendidos da prisão, e muitos se converteram a Cristo.

Anfiteatro

O dia da vitória raiava, e os confessores dirigiam-se da prisão para o anfiteatro trêmulos de alegria e resplandescentes. Perpétua avançava a passos calmos, como uma verdadeira esposa de Cristo, amada por Deus. A expressão viva de seus olhos desviava os olhares de todos. Felicidade, que a acompanhava, regozijava-se por estar liberta de seu fardo e capaz de lutar contra as bestas, das quais havia de passar de um tipo de derramamento de sangue para outro.

Quando chegaram aos portões do anfiteatro, foram obrigados a vestir trajes pagãos: Sátiro, Revogado e Saturnino como sacerdotes do deus Saturno e Perpétua e Felicidade como sacerdotisas do deus Ceres. Perpétua recusou-se: “A razão pela qual viemos por nossa livre vontade foi para que nossa liberdade não fosse violada. Oferecemos nossa vida para que vós não nos imporíeis nada. Tínhamos um acordo!” O ímpio juiz reconheceu a justiça, e permitiu que adentrassem a arena com suas roupas. Perpétua adentrou cantando os Salmos, enquanto Sátiro, Revogado e Saturnino alertavam a multidão do Juízo de Deus. Na presença de Hilarião, o procurador, diziam através de gestos: “O que condenares, Ele há de condenar-te.”

A multidão enfureceu-se, e exigiram que fossem flagelados pelos torturadores. Durante as chibatadas, os mártires deram graças a Deus por poderem participar de Seus sofrimentos; Ele quem dissera “Pedi e recebereis” (João 16:24) lhes deu, conforme pediram, o padecimento que cada um havia desejado. Em seguida, São Saturnino e São Revogado tiveram de enfrentar um leopardo. Não sendo derrotados, foram amarrados num tablado para serem feridos até a morte por um urso, e assim gloriosamente entregaram suas almas a Cristo. Sátiro, por sua vez, foi amarrado a um javali, o qual acabou matando um torturador logo que foi solto e não arrastou Sátiro de forma que ele se ferisse. Então, amarraram-no e abriram a jaula do urso, mas este recusou-se a sair dela. Por isso, Sátiro foi levado de volta à cela dos sobreviventes sem ferimentos.

O uso deste animal na arena era inédito até então, mas assim foi para que Hilarião rivalizasse-as em seu sexo: as duas jovens tiveram que lidar com uma vaca. Tendo amamentado seu filho uma última vez, Felicidade dirigiu-se ao centro da arena com Perpétua. A vaca foi ao ataque de Perpétua, que ao final caiu já com seu manto rasgado e sangrando com grandes cortes. Como a viúva preocupava-se mais com a decência do que com a dor, rapidamente ajeitou seus trapos para que cobrissem seu quadril. Amarrou também seus cabelos despenteados, para que não a dessem uma aparência de luto, mas sim de glória. Quando viu, Santa Felicidade estava ferida e contorcida no chão com os golpes que a vaca lhe dera. Rapidamente correu à companheira, levantou-a e ambas ficaram juntas uma da outra enquanto eram feridas pela vaca. O ânimo dos espectadores apaziguou-se, e as duas foram chamadas à cela novamente.

Lá, um catecúmeno de nome Rústico manteve-se perto de Perpétua, dando-lhe apoio. De repente, a viúva fez como se tivesse despertado de um sonho, embora estivesse acordada o tempo inteiro. Para a surpresa de todos na cela, ela começou a olhar ao redor e disse: “Não faço ideia de quando seremos levados até aquela vaca!” Quando contaram-na, ela não conseguia acreditar, e espantou-se quando viu os ferimentos e o sangue em seu corpo e manto. Ao catecúmeno que era conhecido dela e a seu irmão, Perpétua exortou: “Permanecei firmes na Fé, amai-vos todos uns aos outros e não vos indigneis com os meus sofrimentos.”

Sátiro dirigiu-se a Pudente, o soldado, dizendo: “Aqui estou eu, como prometi e predisse, pois até agora não veio a mim besta alguma. Crê com todo o teu coração: avançarei ao leopardo, e este destruir-me-á com uma só dentada.” Então, como último ato dos jogos para o aniversário de Geta, Sátiro foi lançado ao leopardo e, com uma mordida, foi banhado com tal quantidade de sangue que o povo gritava enquanto o torturado era levado de volta à cela ainda vivo: “Salvo pelo banho! Salvo pelo banho!”

Encontrando-se de novo com Pudente, disse: “Adeus, mas tem em mente minha Fé. Não deixes que essas coisas te perturbem, mas comprovem-te.” Pediu-lhe ainda seu anel, e devolveu-lho lavado com seu sangue como símbolo de seu memorial. Em seguida, foi lançado quase sem vida junto de seus companheiros no local costumeiro onde cortavam-se as gargantas dos sobreviventes. Os espectadores, no entanto, queriam vê-los serem mortos pela espada com seus próprios olhos, e os santos mártires levantaram-se e foram por conta própria até o centro da arena.

Trocaram um último beijo entre si, para que fossem consumados com o beijo da paz. Todos permaneceram imóveis e, em silêncio, receberam o golpe da espada. São Sátiro foi o primeiro a render sua alma, e mais uma vez foi à espera de Perpétua no topo da escada. Santa Perpétua foi trespassada pela espada nas costelas, e começou a gritar numa dor excruciante. Ela mesma pegou as mãos trêmulas do gladiador inexperiente e guiou-as à sua garganta. Santa Felicidade teve seu coração enfincado pela espada, e sangrou até render seu espírito. Os outros, embora já mortos, tiveram suas gargantas cortadas. Santa Perpétua e seus companheiros foram coroados pelo Senhor em 203, quando aquela possuía vinte e dois anos de idade, na era de São Zeferino, Papa de Roma (199–217).

Pós-vida

Ruínas do Anfiteatro de Cartago. A estrutura abaixo do pilar compreendia a Basílica de Santa Perpétua, hoje inundada. Acima do pilar havia uma cruz que sobreviveu pelo menos até o início do século XX, mas que provavelmente foi retirada após a independência da Tunísia islâmica em 1956.

Em algum tempo de paz para os cristãos (provavelmente após o Édito de Mediolano de 313), uma basílica foi construída em honra a Santa Perpétua e seus companheiros no meio do Anfiteatro de Cartago. Da basílica e do anfiteatro, só restaram ruínas e algumas poucas inscrições que comprovam sua consagração.

Hinos

Tropário

(Tom 4)

Teus mártires Perpétua e seus companheiros,
em sua luta por Ti, Senhor,
de Ti receberam a coroa eterna.
Recebendo forças de Ti, ó nosso Deus,
derrotaram os tiranos,
e destruíram a pretensão impotente dos demônios.
Por suas intercessões,
ó Cristo Deus,
salva nossas almas.

Outro tropário

(Tradução livre)

Tuas cordeiras Perpétua e Felicidade, ó Jesus, /
clamam por Ti em alta voz: /
“Nós Te amamos, nosso Noivo, /
“e buscando a Ti, suportamos o sofrimento. /
“No Batismo fomos crucificadas para que pudéssemos reinar em Ti, /
“e padecemos para que pudéssemos viver juntas de Ti. /
“Aceita-nos como um sacrifício puro, /
“pois oferecemo-nos em amor.” /
Por suas orações, ó Senhor misericordioso, /
tem piedade de nós e salva-nos.

Notas

  1. Os manuscritos mencionam o nome do bispo como sendo Optato. De fato, Santo Optato foi Bispo de Milevo na África, há menos de quatrocentos quilômetros de Cartago, porém no final do século IV, centenas de anos após o martírio de Santa Perpétua e seus companheiros. Santo Optato foi um fiel defensor da Ortodoxia que, juntamente com Santo Agostinho, Bispo de Hipona (390–430), distinguiu-se por seus escritos contra a heresia donatista, que posteriormente levou a um cisma na Sé de Cartago até a queda da África ao islã no século VII. Por conta disso, é provável que seu nome tenha sido usado como uma metonímia à Igreja de Cartago.

Referências

  • São Nicodemos, o Hagiorita (1819). Sinaxário dos doze meses do ano. Tomo segundo.

Ligações externas