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Gregório de Nissa

São Gregório.

São Gregório, Bispo de Nissa, e Santa Teosébia, a Diaconisa (séc. IV), foram ou casados ou irmãos. Gregório, chamado de “Pai dos Pais” pelo Sétimo Concílio Ecumênico (787), foi uma santa chama da Ortodoxia em meio às heresias dos primeiros séculos. O abençoado Pai da Igreja e sua caridosa irmã ou companheira são comemorados pela Igreja no dia do repouso do primeiro, 10 de janeiro.

Vida

Filho de Santa Emília, Gregório nasceu em c. 355 durante o reinado de Constâncio II (324–350) na província romana do Ponto (atual costa norte da Turquia), e Teosébia nasceu provavelmente na mesma época. Gregório era o irmão mais novo de São Basílio, o Grande, e viveu durante a controvérsia do Arianismo. Teosébia servia como diaconisa, cuidando dos enfermos, distribuindo comida aos miseráveis, criando crianças órfãs e preparando as jovens para o santo Batismo. Tendo recebido uma excelente educação de Basílio, Gregório tornou-se professor em retórica.

Gregório, que ainda não havia sido batizado a costume do tempo, foi grandemente influenciado pelo herético Orígenes, que defendia uma interpretação alegórica das Sagradas Escrituras e que o Pai e o Filho possuíam duas substâncias distintas. Certa vez, sua santa mãe pediu-lhe que fosse a um ofício em honra aos Quarenta mártires de Sebaste que seria realizado em outra cidade da província. Gregório cumpriu relutantemente seu desejo, pois queria continuar estudando. Durante a viagem cansou-se e, não aguentando mais ficar em pé, acabou saindo da igreja durante a vigília noturna e deitou-se na grama, onde adormeceu. Em sonho, os quarenta mártires apareceram a ele, espancando-o com varas e censurando-o por sua preguiça.

Gregório acordou e se arrependeu grandemente do pecado, o que o fez implorar pela misericórdia e pelo perdão, aceitar o santo Batismo e estar disposto a seguir uma vida muito diligente no serviço a Deus. Gregório aceitou ser ordenado Leitor, o que significou uma profissão de Fé a todos. Entretanto, o estudioso não conseguiu dedicar-se ao serviço na Igreja, e voltou a trabalhar com a retórica e devotou-se ao estudo da literatura pagã, o que desagradou sua família e amigos. Outro São Gregório, o Teólogo, escreveu a ele:

“Que aconteceu contigo, ó homem de sabedoria? Os outros não te elogiam por esta glória desprezível, por tua descida gradual à vida inferior, ou por tua ambição, que, nas palavras de Eurípedes, é o pior de todos os demônios. […] De onde veio tamanha raiva para jogar fora os livros sagrados, cheios de água doce, que outrora lias às pessoas […] e tomar para si os livros de água salgada, impossíveis de serem bebidos? Por que preferes ser chamado de retórico a cristão?”

Pelas orações de sua venerável irmã Santa Macrina, a Jovem, Gregório foi convencido de largar todos os assuntos seculares e ser um devoto do asceticismo, tendo residido no mosteiro de sua mãe e irmã por vários anos.

Em 370, São Basílio foi escolhido Arcebispo de Cesareia (370–379). Em meio à controvérsia de Ário, Gregório tentou fazer as pazes entre Basílio e seu tio, que também era um bispo, e adulterou as cartas que um enviava para o outro. Isso não funcionou, e Basílio, descobrindo o que Gregório havia feito, disse-lhe que a terra havia de abrir ao meio abaixo dele por tais ações. Gregório arrependeu-se, e Basílio o desculpou.

Episcopado e exílio

 
São Gregório no Menológio de Basílio II.

Em 372, durante o reinado do ariano Valente (364–378), Gregório foi consagrado Bispo de Nissa na Capadócia (atual Turquia oriental) por seu irmão. Gregório tornou-se um fervoroso defensor da Ortodoxia, e lutou contra a heresia ariana com São Basílio. Os arianos, por sua vez, perseguiram-no, acusando-o falsamente de apropriação dos bens da igreja e por ter sido ordenado bispo irregularmente, o que levou a ser preso em 375 em Ancira (atual Turquia central). No ano seguinte, Gregório foi deposto por um concílio de bispos arianos, mas continuou a pregar a Ortodoxia ao seu rebanho, vagando de um lugar para o outro. Santa Teosébia andava com ele, compartilhando todas as tribulações de uma vida como errante.

Após a morte de Valente, Graciano (367–383), do Ocidente, escolheu São Teodósio, o Grande (379–395) para ser Imperador no Oriente. Em 379, São Gregório voltou do exílio foi reinserido no episcopado e com alegria foi recebido pelo seu rebanho. No mesmo ano, São Basílio repousou no Senhor, e no ano seguinte, Santa Macrina. São Gregório sobreviveu à perda de seus irmãos e guias com muita dificuldade. Ele lhes compôs uma oração fúnebre e concluiu o estudo de São Basílio acerca dos seis dias da Criação, o Hexamerão.

Ainda em abril de 379, São Gregório esteve presente no Concílio de Antioquia contra os heréticos que se recusavam a reconhecer a virgindade perpétua da Mãe de Deus ou que adoravam a Mãe de Deus como sendo o próprio Deus. Durante esse tempo, visitou e afirmou os ensinamentos ortodoxos às igrejas da Arábia e da Palestina, as quais estavam infectadas com a heresia ariana — pois São Cirilo I, Bispo de Jerusalém, havia sido exilado por treze anos. Nessa jornada, São Gregório peregrinou a Jerusalém e às terras santas. Logo em seguida, São Gregório, o Teólogo, foi proclamado Arcebispo de Constantinopla (379–381), embora sua formalização só tenha acontecido em 381. Sua peregrinação a Jerusalém fê-lo desaprovar que outros — especialmente mulheres — também peregrinassem para lá, pois a Palestina havia se tornado um antro de vício e impiedade.

“Por que fazer aquilo que não foi feito pelos santos e por aqueles que estão próximos do Reino dos Céus? O Senhor não nos mandou ir a Jerusalém como uma boa ação. Que vantagem obtêm os que visitam esses lugares? Não é como se o Senhor vivesse ali em corpo até os dias atuais e tivesse desconsiderado todas as outras terras [de Suas bênçãos]; ou como se o Espírito estivesse florescendo em Jerusalém mas incapaz de vir até nós, aqui. […] Não importa onde o cristão estiver, o Senhor virá a ele se sua alma for de tal forma que Ele possa habitar nela. Mas, se o homem interior estiver cheio de engano, mesmo que o cristão esteja no Gólgota, no Monte das Oliveiras ou no memorial da Ressurreição, estará tão longe de Cristo quanto aquele que sequer começou a confessar a fé n’Ele. […]”

Concílios e catequese

Em 381, os santos Imperador e Arcebispo convocaram em Constantinopla o Segundo Concílio Ecumênico, que anatemizou também outra heresia, a do Macedonianismo, que negava a divindade do Espírito Santo. Nesse concílio, por iniciativa de São Gregório, um dos cento e cinquenta bispos presentes, foi concluído o Credo Niceno-Constantinopolitano, usado por toda a Igreja Ortodoxa até o presente.

Na era do santo Arcebispo Nectário de Constantinopla (381–397), São Gregório participou do Concílio de Constantinopla de 383, o qual anatemizou o Anomeanismo, que reafirmava Jesus Cristo como sendo de uma natureza diferente da do Pai. Na ocasião, pregou um sermão que havia sido iniciado por São Basílio sobre a divindade do Filho e do Espirito Santo. Santa Teosébia partiu para o Senhor em 385, e São Gregório compôs um encômio a sua amada irmã ou esposa. No mesmo ano, concluiu “A Grande Catequese”, livro de instruções religiosas preservado até os dias atuais. Em 386, realizou o ofício fúnebre em memória à santa Imperatriz Flacila, esposa de São Teodósio e mãe do santo Imperador Arcádio (383–408). Esteve também presente no Concílio de Constantinopla de 394, o qual abordou questões sobre a Igreja na Arábia.

São Gregório distinguia-se por sua magnanimidade, paciência e amor pela paz, tendo influenciado significativamente a vida da Igreja de sua época. Sua irmã Macrina escreveu-o:

“És conhecido tanto nas cidades como nas reuniões de pessoas e em todos os distritos. As igrejas clamam por tua ajuda.”

São Gregório é conhecido na história como um dos maiores pensadores cristãos do século IV. Dotado do talento filosófico, o santo bispo via a Filosofia como um meio para a penetração mais profunda no significado verdadeiro da revelação divina. Tendo atingido a velhice, repousou logo após esse último concílio. São Gregório nos deixou muitas obras notáveis de caráter dogmático, além de sermões e discursos.

Hinos

Tropário

(Tradução livre)

Ó Deus dos nossos pais, /
que Tu sempre ajas com bondade para conosco. /
Não retires de nós a Tua misericórdia, /
mas guia nossas vidas em paz, /
pelas orações do hierarca Gregório.

Outro tropário

(Tradução livre)

Ó Bispo Gregório, /
os teus justos atos mostraram aos fiéis uma lei de fé, /
uma imagem de mansidão e um mestre de renúncias. /
Por isso conseguiste, pela mansidão, consideração e pobreza, a grande riqueza. /
Intercede, pois, junto ao Senhor, /
pela salvação de nossas almas.

Condáquio

(Tradução livre)

Vigiaste com os olhos de tua alma, ó santo bispo, /
revelando-se como um vigilante pastor para o mundo. /
Com o bastão de tua sabedoria e tua fervorosa intercessão, /
afastaste todos os heréticos como lobos. /
Preservaste teu rebanho livre de perigos, /
ó sapientíssimo Gregório!

Outro condáquio

(Tradução livre)

Regozijando-se com os Anjos e deleitando-se na Luz Divina, /
ó Gregório de Nissa, mente vigilante, /
divinamente inspirado hierarca da Igreja, /
reverenciado hinógrafo da sabedoria, /
intercede incessantemente por todos nós.

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