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== História ==
Quarenta dias após Seu nascimento, Jesus foi levado ao Templo de Jerusalém, o então centro da vida religiosa em Israel. De acordo com a Lei Mosaica, a mulher que desse à luz um menino deveria ausentar-se do Templo de Deus por quarenta dias, até que fosse curada. Após esse tempo, a mãe viria com o filho para oferecer um cordeiro ou um par de rolinhas ou pombas ao Senhor como sacrifício de purificação e para consagrá-lo ao Senhor. A consagração de todo primogênito fora ordenada ao Profeta Moisés durante a fuga do povo de Israel do Egito, servindo para relembrar aquele povo da beneficência de Deus, a Quem toda a criação pertence. A Mãe de Deus não tinha a necessidade de purificar-se, já que ela própria havia dado à luz a Fonte da pureza e da santidade, e em toda a terra não havia alguém mais pura do que ela; nem Jesus tinha necessidade de ser consagrado, uma vez que ele mesmo era o Senhor. No entanto, os dois humildemente cumpriram os requisitos da Lei.
A Mãe de Deus, acompanhada de São José, tomou o caminho em direção ao Templo, para apresentar o recém-nascido Jesus a São Zacarias, o Sumo-Sacerdote e esposo de Santa Isabel, pai do Precursor. Quando chegaram lá, São Zacarias sabiamente levou a Mãe de Deus com Jesus ao local no templo reservado para as virgens, e pediu que ela aguardasse enquanto ele preparava o ofício.
A Festa da Apresentação do Senhor é uma das mais antigas da Igreja, tendo originado em Jerusalém. Sermões dessa festa já foram proclamados pelos santos bispos Methódios de Patara, Cirilo de Jerusalém, [[Gregório, o Teólogo|Gregório o Teólogo]], Anfilóquio de Icônio, [[Gregório de Nissa]] e [[João Crisóstomo]] (com dúbia exceção de Crisóstomo, todos no século IV).
A primeira tentativa de equipará-la às outras grandes festas da Igreja parece ter acontecido em Roma na transição do séc. V para o VI. Naquele tempo, embora proibida, a festa pagã da Lupercália ainda era comemorada em segredo pelos pagãos da cidade de Roma, e qualquer iniciativa de suprimi-la era frustrada pelo Senado, cuja boa parte dos membros era cristã só em nome. Aliás, o mês de fevereiro possui esse nome em alusão à festa pagã (do latim ''februum'' – aquilo ofertado para purificação), que ocorria todo 15 de fevereiro. Diante disso, o Patriarca Gelásio de Roma (492–496) reuniu seus mais habilidosos melodistas para expandirem a Festa da Apresentação e assim destruírem a festividade pagã. === A praga de Justiniano ===A festa não seria celebrada tão esplendidamente até o século VI, quando inúmeros hinos foram compostos em sua honra. Em 528, durante o reinado de Justiniano, um terremoto matou várias pessoas em Antioquia, seguido de outras desgraças. Em 541, uma terrível praga aconteceu em Constantinopla, conhecida até hoje como “praga de Justiniano”, levando vários milhares de pessoas a cada dia. Diante dessa desolação, os mosteiros e as paróquias da capital compilaram e passaram a realizar uma litania pela libertação dos males antes de toda Divina Liturgia. De lá, São Menas, Patriarca de Constantinopla (536–552), enviou o texto para todas as suas dioceses filhas, ordenando a realização da litania.<ref group=nota>Essa prática repetiu-se durante a pandemia de coronavírus nos anos de 2020 a 2022.</ref>
: Tem piedade de nós, ó Deus, segundo a Tua grande misericórdia. Nós Te imploramos, ouve-nos e tem piedade de nós.
: Roguemos ainda pelos piedosos cristãos ortodoxos.
: Roguemos ainda pelo nosso [Bispo/Arcebispo/Metropolita/Patriarca] …
: Roguemos ainda pelos nossos irmãos; sacerdotes, hieromonges, hierodiáconos e monges; e por todas as nossas irmandades em Cristo.
: Roguemos ainda por misericórdia, vida, paz, saúde, salvação, proteção, perdão e remissão dos pecados dos piedosos servos de Deus …, todos os piedosos cristãos ortodoxos, que residem e visitam essa cidade; os paroquianos, os membros do conselho [paroquial/episcopal], os servidores e benfeitores dessa santa igreja.
: Roguemos ainda pelos abençoados e memoráveis fundadores dessa santa igreja, e por todos os nossos pais e irmãos que faleceram antes de nós, que foram aqui piedosamente sepultados, bem como os ortodoxos em todos os lugares.
: Roguemos ainda por aqueles que dão frutos e fazem boas obras a essa santa e venerável igreja, por aqueles que trabalham e cantam, e pelas pessoas aqui presentes que esperam de Ti a Tua grande e rica misericórdia.
Entre cada súplica, o povo e o coral repetem “Kyrie eleison” três vezes.
=== A comemoração da festa ===
Ainda em meados do século V, a santa Imperatriz Pulquéria dera início à construção da Igreja da Mãe de Deus de Blaquerna ao norte de Constantinopla. Nos anos seguintes, a igreja foi ricamente ornamentada pelas famílias reais, passando a ter a principal fonte de água benta do império, o relicário do manto e do cinto usados pela Mãe de Deus e um banho de água benta para os imperadores. Era nessa igreja em que o patriarca e todo o clero de Constantinopla se reuniam para oficiar a Festa da Apresentação, com horas e horas de hinografias dedicadas à festa.
[[Imagem:ΝΙΨΟΝΑΝΟΜΗΜΑΤΑΜΗΜΟΝΑΝΟΨΙΝ.jpg|Exemplo do ambigrama no Mosteiro da Mãe de Deus de Malevos, no Peloponeso.|direita|miniatura]]
Da mesma forma que Cristo havia sido apresentado no Tempo para Sua purificação, os imperadores justos banhavam-se com água benta no dia da festa para igualmente se purificarem. As paredes da câmara de banho eram preenchidas com ícones do teto ao chão, e foram o refúgio de [[Theodora, a Augusta|Santa Theodora]] durante o iconoclasmo. Essa tradição podia se repetir em outras festas do ano a critério do imperador, como na [[Dormição da Mãe de Deus|Festa da Dormição]]. Para os fiéis, havia a fonte de água benta, na qual lavavam seus rostos. Como costume nas fontes de água benta, havia a inscrição ''Νίψον ἀνομήματα, μὴ μόναν ὄψιν'' (lava-te as transgressões, não somente o rosto), igualmente um palíndromo e ambigrama.
Os cristãos ortodoxos que comemoram essa festa nutrem em seu nous uma poderosa confissão de Fé, muitas vezes passada despercebida: confessando que Cristo revelou-Se ao mundo não em mera opinião ou símbolo, mas sim em verdade, condenamos os falsos mestres de outrora, os quais afirmavam que Cristo não possuía natureza humana, mas somente divina.
Tanto acerca da apresentação como da circuncisão e do batismo, Cristo e Sua Mãe não necessitavam cumprir nenhum desses preceitos, mas em sua humildade fizeram tudo o que era exigido pela Lei. Os dois não careciam de purificação, mas como Novo Adão e Nova Eva, o fizeram como um ato de obediência. Essa obediência era própria do Novo Adão, em contraste à desobediência do antigo Adão. Se a desobediência resultara na queda e na corrupção, a obediência de Cristo trouxe a natureza humana —desobediente em sua essência— de volta a Deus, curando o homem de sua participação da desobediência.
Através dessas festas, lembramo-nos de cumprir os rituais da Igreja em sua pureza, seguindo os dois maiores exemplos de pureza. Da mesma forma que Cristo foi apresentado, também nós devemos apresentar-nos em consagração a Deus, a Quem também devemos trazer nossas almas e corpos como um sacrifício vivo, puro e imaculado.
A ênfase dada ao justo ancião e à Profetisa Ana pela Igreja não é mera coincidência: recordando sobre eles, os hinos da Igreja buscam inspirar o cristão a ter Cristo como sua consolação e salvação, confiando n’Aquele que concede a vida e o descanso, como o fez a São Simeão. Já o exemplo de Santa Ana está em sempre que possível estar presente nos ofícios da Igreja, bem como render graças a Ele através da oração e do jejum.
Hinógrafos da Igreja adornaram essa Festa com seus hinos: [[André de Creta|Santo André de Creta]] no século VII; São Cosme de Maiuma, [[João de Damasco|São João Damasceno]] e São Germano de Constantinopla no século VIII; e São José, Arcebispo de Tessalônica, no século IX.
Nesse dia, também comemoramos o ícone da Santíssima Mãe de Deus, conhecido como “Suavização dos Corações Maus” ou “Profecia de Simeão”. A Virgem Maria é representada sem a Criança, com sete espadas atravessando seu peito: três à esquerda, três à direita, e um de baixo. Um ícone semelhante, “das Sete Espadas”, mostra três espadas à esquerda e quatro à direita. Esses ícones simbolizam o cumprimento da profecia do justo Ancião Simeão: “uma espada transpassará a tua alma”.
=== A apresentação de crianças hoje ===
Seguindo o exemplo de Cristo e Sua Mãe, toda mãe cristã ortodoxa apresenta à Igreja seus filhos acompanhada do padrinho deles no quadragésimo dia do nascimento, independentes de serem menino ou menina, primogênito ou não. Estando os três diante das Portas Reais do altar, o sacerdote e o leitor iniciam as orações, começando pelo trisagion.
Então, a mãe inclina sua cabeça e o sacerdote coloca a mão sobre ela, dizendo:
: Ó Senhor Deus Onipotente, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, por cujo verbo formaste todas as criaturas racionais e irracionais, por Quem trouxeste todas as coisas do nada à existência, nós Te rogamos e suplicamos: purifica a Tua serva …, a quem Tu salvaste pela Tua vontade e que agora vem à Tua santa igreja, de todo pecado e de toda impureza, para que seja digna de participar dos Teus Santos Mistérios sem condenação.
Em seguida, o sacerdote coloca sua mão sobre a cabeça da criança e diz:
: Abençoa também essa criança que dela nasceu, concede-lhe o crescimento e a santificação, entendimento e uma mente virtuosa; porque Tu sozinho a trouxeste à existência e mostraste a luz ao seu corpo, ''para que ela seja digna de receber a luz noética no tempo propício e enumerar-se ao Teu santo rebanho'', pelo Teu Filho Unigênito, com o Qual és Bendito, juntamente com o Teu Santíssimo, Bom e Vivificante Espírito. Agora, sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.<ref group=nota>Se a criança já recebeu o Santo Batismo, o trecho em itálico é omitido.</ref>
Então, todos os presentes inclinam suas cabeças em direção ao altar, e o sacerdote faz três orações à Santíssima Trindade:
: Ó Senhor nosso Deus, Tu que sempre estás presente pela salvação do gênero humano, vem também à Tua serva … e faze-a digna, pelas orações do Teu venerável presbitério, de encontrar refúgio em Tua Igreja, Santa e Católica, e de receber a entrada no templo da Tua glória. Faze-a digna também de comungar o Precioso Corpo e Sangue do Teu Cristo. Tendo completado o cumprimento dos quarenta dias, lava-a das impurezas do corpo e das máculas do espírito, para que sendo digna de entrar no Teu santo templo, glorifique conosco o Teu santíssimo Nome, Pai, Filho e Espírito Santo. Agora, sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.
: Ó Senhor nosso Deus, Tu que foste trazido no quadragésimo dia como criança ao Templo da Lei por Maria, Tua Santa Mãe inesposada, carregado nos braços do justo Simeão, Tu mesmo, Senhor Onipotente, abençoa essa criança que é apresentada, para que seja conhecida por Ti, ó Criador de todas as coisas. Engrandece-a nas boas obras, agradáveis a Ti; espanta dela todos os poderes adversários, pelo sinal em semelhança à Tua Cruz, pois Tu és Quem guarda as crianças, ó Senhor. Para que, ''digna do Santo Batismo'', ela obtenha a porção dos eleitos do Teu Reino, sendo guardada conosco pela graça da Santíssima Trindade Consubstancial e Indivisível. Porque a Ti rendemos glória, honra e adoração, com o Pai Eterno e o Santíssimo, Bom e Vivificante Espírito. Agora, sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.
== Hinos ==
== Referências ==
<references />
== Notas ==
<small><references group=nota /></small>
[[en:Meeting of the Lord]]