Eulália e Júlia de Emerita

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Santa Eulália representada em vitral na tradição ocidental.

As Santas Virgens e Mártires Eulália e Júlia de Emerita (m. 304) foram duas virgens martirizadas na atual cidade de Mérida, na Espanha, em virtude da Grande Perseguição. A Igreja honra ambas as santas no dia do seu martírio, 10 de dezembro.

Vida

Eulália nasceu na capital da Província da Lusitânia, Emerita, durante a década de 290. Emerita era uma cidade bem-afortunada e de muitas festas, e essa situação não era diferente dentro da família de Eulália. A virgem cristã, que havia sido tutelada por um sacerdote cristão de nome Donato, não via prazer em ornamentos ou nas riquezas materiais, e negou honrosos e grandiosos pedidos de casamento. Abandonando todos esses deleites, a donzela preparava-se na jornada para a herança celeste.

Todavia, em 303, os ímpios imperadores de Roma deram início ao que seria posteriormente conhecida como a mais severa perseguição de cristãos do Império Romano, em que os cristãos ou ofereciam sacrifícios aos deuses pagãos ou eram oferecidos como sacrifício. Os piedosos pais de Eulália, temendo que ela fosse capturada pelos partidários de Maximiano (285–305), esconderam-na numa casa de campo distante da cidade. A santa, após saber da perseguição, e ansiando juntar-se ao seu Esposo celestial, fugiu durante uma noite escura, junto de sua companheira, Júlia. À companheira, Eulália disse profeticamente: “Ainda que te apresses, eu morrerei primeiro.”

Assim como os filhos de Israel tinham, pelo poder de Deus, uma coluna de fogo que os guiava durante a noite, assim as piedosas donzelas eram guiadas pelo Senhor na estrada a Emerita. Ao raiar do sol, Eulália adentrou o tribunal da urbe e, no meio de todos, gritou em alta voz:

“Grande é a pena que tenho de vós, que destruís e matais as almas dos homens, jogais seus corpos contra as rochas e fazeis com que neguem ao Deus onipotente! Sabeis, ó infelizes, quem é essa donzela? Eis que sou dos cristãos, inimiga de vossos sacrifícios diabólicos. Desprezo vossos ídolos sob meus pés e confesso a Deus onipotente com meus lábios e coração.
“Ísis, Apolo, Vênus e o próprio Maximiano de nada são. Aqueles, porque são obra das mãos dos homens. Este, porque essas obras adora. Portanto, ambos são frívolos. Maximiano é um senhor do mundo, e ainda assim prostra-se perante pedras, e jura a honra de sua dignidade àquilo mais inferior que seus vassalos.
“Por que, então, oprime espíritos mais dignos e corajosos que ele tão tiranicamente? Que líder se alimenta de sangue inocente, rasga e dilacera os corpos dos homens piedosos e, além disso, tem o prazer de destruir e subverter a fé? Ide, pois, queimai, cortai e mutilai nossos membros terrenos. Fácil é quebrar substâncias frágeis, porém impossível é ferir a mente interior.”

Calpurniano, o juiz, tomado de cólera, ordenou: “Carrasco, suspenda-a pelos cabelos, torture-a ao máximo, deixe-a sentir o poder de nossos deuses e respeitar o Império. Mas antes, ó garota resistente, suplico-te que revogue esta tua maldade. Vê os prazeres que deixarás de desfrutar na honrada casa de onde viestes, tua descendência não existirá, e a nobreza lamentar-se-á tristemente por ti. Caminhará à morte uma flor tão jovem quanto esta, e tão próxima de casamentos honrosos e abundantes dotes para serem desfrutados? A pompa brilhante e dourada de uma noiva não te comove? A piedade de teus ancestrais não te sensibiliza? Quem não se entristecerá com o teu fim? Vê os instrumentos mortais que te aguardam, ou serás decapitada por esta espada, ou serás devorada por estes animais, ou ainda serás lançada às chamas ardentes; que grande problema é para ti, rogo-te, escapar de tudo isso? Se apenas pegares e colocares com teus dedos um pouco de sal e incenso nos incensários, serás liberta de todas essas punições.”

A corajosa Eulália respondeu a súplica do juiz atirando os ídolos ao chão e pisando no incenso preparado. Então, sem delongas, os carrascos a pegaram e açoitaram-na cruelmente. Depois, pisaram-lhe os ossos, derramaram-lhe óleo fervente sobre o corpo, distenderam seus membros e com garras a rasgaram seu corpo até os ossos. Mesmo manchada e embebida com seu próprio sangue, a santa ainda cantava alegre:

“Ó Senhor, eis que não te esquecerei! Qual prazer é para aqueles, ó Cristo, que se lembram das tuas triunfantes vitórias, alcançar tão altas dignidades!”

Então, os carrascos prosseguiram para o último tormento, que consistiu em queimar o que restava de seu corpo vivo com tochas flamejantes. Quando a chama atingiu o topo de sua cabeça, a virgem mártir abriu sua boca, para que as chamas entrassem nela e a sufocassem. Assim, entregou sua alma ao Senhor, e juntou-se ao seu Esposo celestial, que a concedeu a coroa do martírio. Logo em seguida, Santa Júlia foi decapitada. Ambas as virgens foram martirizadas aos doze anos de idade.

Na figura de uma pomba, a alma de Santa Eulália subiu ao Céu. Isso foi visto por muitos, e por um dos carrascos que, atônito, rogou pela penitência. Então, do céu milagrosamente caiu uma grande quantidade de neve, cobrindo o corpo das santas. Mais tarde, Santa Eulália e Santa Júlia foram enterradas pelos cristãos.

Pós-vida

Sobre seu túmulo estava um templo pagão, que logo foi transformado numa basílica, devido à grande veneração de suas milagrosas relíquias. A Basílica de Santa Eulália, existente até a atualidade e considerada Patrimônio da Humanidade, abrigava o túmulo e as relíquias de Santa Eulália. Santa Eulália intercedeu por Emerita durante um cerco dos visigodos, ordenando em sonho ao rei que levantasse o cerco, e assim o fez. Inscrições do século VI feitas por São Gregório, Bispo de Turono (573–594), relatam que as árvores que davam sombra ao sepulcro anualmente costumavam dar flores com um doce aroma e em formato de pomba durante o mês de dezembro, época em que as árvores da região perdem suas folhas. Mais tarde, as relíquias de Santa Eulália foram transferidas para a Basílica de São Salvador, no norte da Espanha.

Nota

A memória das santas aparentemente não sobreviveu nos manuscritos orientais, sendo o único registro conhecido da festa além do Martirológio Romano o Calendário Neapolitano do século IX.

Referências

  • Diogo do Rosário (1870). História das vidas de Cristo e Sua Santíssima Mãe e dos santos e suas festas. Volume XII: Festas e santos do mês de dezembro.