Gativanda da Cachétia

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Santa Gativanda.

A Mais Ortodoxa Santa Rainha e Megalomártir Gativanda da Cachétia (séc. XVII) foi uma rainha da Cachétia, um reino no leste da Geórgia. Juntamente com seus santos companheiros dos quais conhecemos o Venerável Hieromártir Moisés, a heroína bravamente confessou-se cristã perante o demônio islâmico e por ele foi preparada em holocausto a Deus. Sua memória é comemorada pela Igreja no dia 13 de setembro.

Vida

Gativanda nasceu no século XVI, próximo ao ano de 1560, filha do Príncipe Assotão I da Mucarânia na Cártlia (ao noroeste de Tiblissi), um benfeitor do Mosteiro de Iverão na Montanha Santa e das igrejas georgianas. Naquele tempo, crises dentro da linhagem real destruíram completamente a unidade nacional da Geórgia em diversos reinos, e irmãos declaravam guerra uns aos outros. Isso resultou na anexação da santa terra georgiana pelos islâmicos, que repartiram o país em dois: a Cártlia e a Cachétia, no leste, tornaram-se possessões do Império Safávida, enquanto que o oeste foi tomado pelo Império Otomano.

Em meio à opressão safávida, Deus presenteou seu piedoso servo Assotão, agora vassalo dos persas, com Gativanda. Ele, entretanto, não pôde acompanhar a vida de sua única filha, pois foi assassinado durante uma batalha nas montanhas do norte enquanto ela ainda era um bebê; sua morte deu-se no primeiro ano da era do Patriarca Nicolau IV da Geórgia (1560–1584). O Principado da Mucarânia foi rapidamente tomado por Vactangue, irmão de Assotão e que co-governava com ele, e Gativanda pôde crescer nos mais piedosos moldes cristãos refugiada nas montanhas do sul.

Depois de muito tempo, aos vinte anos de idade, a caridosa Gativanda casou-se com seu sobrinho de quinto grau, o então Príncipe Davi, que à época possuía doze anos de idade, filho do Rei Alexandre II da Cachétia. Quando Davi fez seus vinte anos de idade, seu pai formalizou uma aliança com São Teodoro I, Imperador da Rússia (1584–1598), para repelir os ataques islâmicos ao seu reino, e a Cachétia pôde desfrutar de um período de paz e segurança em meio à dominação persa. Nessa época, Davi e Santa Gativanda foram agraciados com quatro filhos: Teimuraz, Vactangue, Helena e Marta; provavelmente todos tomados como prisioneiros pelos persas e levados à corte do Imperador Abas, o Grande (1588–1629), quando ainda eram crianças.

Reinado

Em 1601, já com setenta e quatro anos de vida, Alexandre II adoeceu, e a ambição pelo poder subiu à cabeça de seu filho Davi, que à época possuía trinta e dois anos de idade. Quando seu irmão mais novo, o Príncipe Jorge, foi confiado para guiar o reino enquanto seu pai se recuperava, Davi invadiu o palácio com suas tropas e exilou seu próprio pai num mosteiro, enquanto que Jorge fugiu para salvar sua vida. Foi assim que, aos quarenta e um anos de idade, Santa Gativanda foi coroada Rainha da Cachétia contra sua vontade.

A santa rainha via-se impossibilitada de conciliar sua vida de oração com suas novas responsabilidades, e rogou ao Senhor para que Ele a livrasse da morte espiritual. Deus ouviu suas orações e, no ano seguinte, Davi caiu enfermo e morreu. Na volta de Alexandre II, Santa Gativanda alegremente retornou sua coroa à Rainha Tinatina (1574–1605) e, livre de seu fardo, dedicou sua vida à caridade e à providência dos mosteiros e das igrejas georgianas.

Em 1605, Alexandre II foi assassinado juntamente com Jorge pelo seu próprio filho, Constantino I, após terem-no recebido com estima no Xirvão (atual Azerbaijão). Como Constantino havia crescido na Pérsia, converteu-se ao islã ainda em tenra idade, e à época estava lutando contra os otomanos quando aproximou-se do território de seu pai. Por negarem participar da luta entre xiitas persas e sunitas otomanos, Constantino decapitou-os e enviou suas cabeças à Pérsia enquanto coroava-se Rei da Cachétia. Depois, ordenou que a santa rainha casasse-se com ele.

Santa Gativanda foi a primeira a clamar por uma insurreição e, convocando os nobres da Cachétia e da Cártlia, lutou contra o exército de Constantino e matou-o à espada. Instituindo seu filho Teimuraz como Rei da Cachétia, Gativanda ocupou-se de curar todos os presos e soldados inimigos e oferecer-lhes postos no exército cristão. Quanto aos mercadores persas, todos receberam o dinheiro necessário para cobrir os custos da guerra e foram libertos.

Como Teimuraz ainda possuía dezesseis anos de idade, Santa Gativanda agiu como regente e casou-o com Ana, filha do Príncipe Mamede II da Guria (1600–1625). Em 1609, porém, a Rainha Ana foi acometida por um tumor e rendeu sua alma. Teimuraz, então, casou-se com Corassana, irmã de São Luarsabe II, Rei da Cártlia (1606–1615), e o Imperador Abas, em troca, tomou à força uma das filhas de Santa Gativanda como mais uma de suas várias esposas, isso para ofender a Fé cristã dos georgianos.

Nos anos que se seguiram, as relações entre os dois reinos e o Império Safávida se deterioraram em virtude das execuções de traidores persas pelos georgianos e pelo fato de Teimuraz e São Luarsabe recusarem-se a se encontrar com o imperador na Pérsia, temendo uma emboscada. O Imperador Abas, então, preparou todo o seu exército para invadir a Cártlia e a Cachétia e, na primavera de 1614, pôs seu plano em prática.

Massacre

Como a Rússia passava por uma grave crise vinda com o repouso de São Teodoro em 1598, os dois reis suplicaram pelo apoio otomano na Imerécia, mas os sunitas deram-lhes as costas. Quando Abas soube desse encontro, invadiu a Cachétia durante três anos, assassinando no total cem mil georgianos e tomando mais duzentos mil como escravos à Pérsia, dentre os quais estava Santa Gativanda. A população da Cachétia diminuiu dois terços, e suas mais célebres cidades foram reduzidas a escombros. A destruição dos campos trouxe uma grande fome aos sobreviventes, que não tinham nem mais como comercializar seus produtos. Na palavra dos cronistas persas, “Desde o início do islã [na Pérsia], nenhum acontecimento deste tipo teve lugar sob qualquer outro rei”.

Santa Gativanda foi aprisionada em 1614, aos cinquenta e quatro anos de idade, numa casa em Xiraz, no sul da Pérsia, juntamente com outros membros da família real georgiana, como os jovens príncipes Alexandre e Leão, filhos de Teimuraz com Ana. Alguns anos depois, os dois príncipes foram tirados de sua avó e levados a Ispaã, trezentos e cinquenta quilômetros ao norte de Xiraz, e torturados sem que ela soubesse. Alexandre, que possuía dez anos de idade, não resistiu às facadas e entregou seu espírito a Deus; Leão, com treze, tornou-se louco. A rainha passou uma década no cárcere, orando incessantemente pelo seu povo e pelos seus entes queridos. Mesmo jejuando constantemente, Santa Gativanda era cheia de vitalidade, cuidando sempre de todos os que vinham a ela e catequizando-os em Jesus Cristo.

Um de seus servos era seu confessor, o Hieromonge Moisés, que informou o embaixador do Rei Felipe III da Espanha na Pérsia sobre a condição da piedosa rainha. Foi através dele que soube-se que a casa da rainha era repleta de ícones e livros sagrados, incluindo o Salmódio, o Evangelho, os Atos dos Apóstolos e as Epístolas de São Paulo. Muitos viviam em sua casa como servos para poderem praticar a Fé e adorarem a Cristo. Algum tempo depois, São Moisés foi martirizado pelos persas, e Gativanda soube que, a partir de agora, seus pecados só poderiam ser apagados através do sangue.

Em 1624, enviados do Imperador Abas adentraram a residência e interromperam a oração da rainha com a proposta de que o imperador queria tomá-la como mais uma de suas esposas. Ela corajosamente negou, e os emissários disseram-na qual havia sido o fim de seus dois netos e do santo Rei Luarsabe. Santa Gativanda chorou amargamente, e os homens deixaram-na com o aviso de que se não renunciasse à Fé seria em breve sujeitada à tortura pública.

Não demorou até que o sultão da região visitasse-a, pedindo para que ela se submetesse ao imperador e se salvasse, e inclusive seus servos aconselharam-na a converter-se “de mentira”, mas a rainha firmemente recusou, dedicando o tempo que ainda lhe restava à oração. Sua firmeza serviu de exemplo às milhares de mães georgianas tomadas como escravas que, enquanto seus filhos e esposos facilmente abraçavam o islã, permaneciam fiéis a Cristo através da bravura da santa rainha. Depois de muitas persuasões, o imperador desistiu e ordenou sua tortura. Quando soube que os soldados estavam chegando, Santa Gativanda vestiu-se com seu traje mais festivo e apresentou-se a eles. Então, levaram-na ao centro de Xiraz e convocaram toda a população para assistir à sua tortura.

Os torturadores mandaram-na renunciar a Cristo, e ela negou. Arrancaram-lhe então todas as suas unhas. Perguntaram-lhe pela segunda vez, e ela negou. Puseram então sua cabeça num caldeirão de cobre fervente, e toda a sua nuca foi queimada. Perguntaram-lhe pela terceira vez, e ela negou. Furaram então todo o seu corpo com lanças incandescentes. Perguntaram-lhe pela quarta vez, e ela negou. Deitaram-na então ao chão e pregaram uma tábua às suas costas. Perguntaram-lhe pela quinta vez, e ela negou. Viraram-na então para cima e, fazendo pressão para que os pregos perfurassem ainda mais suas costelas, esfaquearam e abriram seu tórax com facas. Perguntaram-lhe pela sexta vez, e ela, sem ter mais forças nem sangue para falar, fez que não. Então, com uma espada, os torturadores partiram sua cabeça ao meio.

Foi assim que, em 13 de setembro de 1624, na era do Patriarca Zacarias I (1623–1630), aos sessenta e quatro anos de idade, Santa Gativanda, a Grande Mártir da Cachétia, entregou-se como um imaculado cordeiro ao seu Esposo em Sua morada celestial.

Pós-vida

Relíquias de Santa Gativanda em Goa.

Após jogarem o corpo da rainha para ser comido pelos cães, Deus fez com que as relíquias de Santa Gativanda reluzissem, o que espantou as bestas e chamou a atenção dos missionários portugueses que acompanharam seu martírio. Cortando seu braço para si, levaram-no de navio até Goa na Índia, onde veneraram-na como santa na Igreja de Santo Agostinho.

Uma de suas servas encontrou seu corpo já sem o braço, e escondeu-o com muita reverência na casa de seu novo mestre. Naquele tempo, os jesuítas, que tentavam ganhar influência entre os georgianos, foram atrás do corpo, mas, não o encontrando onde os outros missionários haviam-no deixado, decapitaram um cadáver e envolveram seu corpo em linho perfumado com mirra e incenso. Então, levaram-no à Cachétia, a mais de mil e quinhentos quilômetros de lá, onde anunciaram a Teimuraz e a todos os cachétios que aquelas eram as relíquias de Santa Gativanda. Eles mesmos realizaram uma grande procissão pela Catedral de São Jorge em Alaverdí, depositaram-no lá e chamaram todos para venerá-lo.

Algum tempo depois, as notícias se espalharam e chegaram até a Pérsia. A serva, então, apressou-se para enviar uma correspondência ao rei, informando-o que suas relíquias ainda estavam consigo em Xiraz. A ira caiu sobre Teimuraz, mas os jesuítas já haviam fugido das terras georgianas. Em algum tempo de paz entre 1624 e 1625, a serva e outros georgianos foram repatriados à Cachétia, e junto deles chegaram as verdadeiras relíquias de Santa Gativanda. O martírio da santa rainha abalou a todos os georgianos, inclusive seu filho Teimuraz, que considerou-se o culpado por tudo o que aconteceu e gemeu-se enquanto compunha um longo poema em honra à sua mãe. Ele dizia:

“Ai de mim! Eu, transgressor e pecador, não estive com ela, e por isso agora lamento; com a minha mão destra a Cruz não consegui defender, e por isso verto lágrimas. Amedronto-me dos poderosos guardiões do ar e dos tormentos insuportáveis após minha expiração. Ó Arcanjo Gabriel, não me deixes cair das tuas mãos; ó mártires e santos, livrai-me das trevas; ó Senhor, rogo-Te que no Teu Julgamento não me afastes das sábias virgens e de estar à Tua direita faze-me digno… Chegará o dia em que ficarei nu, com a cabeça curvada, silente, envolto em meu pecado de outrora, sem bênçãos, com as mãos e os pés atados embora exteriormente resplandecentes. O verme que não morre espera-me no fogo que não se apaga.”

No primeiro ano de seu repouso, os cachétios abriram seu caixão e encontraram-no vazio. Ao mesmo tempo, uma fragrância indescritível tomou conta da igreja. Enquanto alguns afirmavam que os latinos haviam voltado para roubar seu corpo, Teimuraz tinha certeza: “A morte não a matou, viva minha mãe está, e com a coroa do martírio ela senta-se na Escada da Divina Ascensão.”

Desde o fim do século XX, diversas delegações georgianas empenharam-se em encontrar as relíquias da rainha na Igreja de Santo Agostinho em Goa, mas tudo o que puderam encontrar eram os documentos dos portugueses atestando que seu braço estava mantido numa urna de pedra abaixo de uma janela do mosteiro. Foi somente em 2005 que as ruínas da referida janela puderam ser encontradas, mas não havia nenhuma urna nas proximidades. Foram encontrados, entretanto, muitos fragmentos de ossos pelas pedras, e foram guardados pelos arqueólogos. Em 2013, um laboratório indiano analisou os ossos e concluiu que pertenciam a uma mulher de um haplogrupo ausente na Índia mas presente na Geórgia. Essa foi a prova final para determinar que aqueles ossos, na verdade, eram as relíquias de Santa Gativanda.

Hinos

Tropário

(Tradução livre)

Tua cordeira Gativanda, ó Jesus, /
clama por Ti em alta voz: /
“Eu Te amo, meu Noivo, /
“e buscando a Ti, suportei o sofrimento. /
“No Batismo fui crucificada para que pudesse reinar em Ti, /
“e padeci para que pudesse viver junta de Ti. /
“Aceita-me como um sacrifício puro, /
“pois ofereci-me em amor.” /
Por suas orações, ó Senhor misericordioso, /
tem piedade de nós e salva-nos.

Referências

  • São Nicolau, Bispo de Ócrida (2002). O prólogo de Ócrida. Volume segundo.

Ligações externas